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Jornalismo ambiental no Brasil


A jornalista e apresentadora de TV Maria Zulmira de Souza foi a convidada do Fórum de Liderança ABDL do dia 24 de julho de 2003. Nessa oportunidade ela pode contar parte de sua história como uma das primeiras comunicadoras especializadas em meio ambiente da mídia brasileira e seus 11 anos de trabalho com o Repórter Eco. Sua apresentação procurou revelar um pouco do cenário atual mídia ambiental e das estratégias que as organizações da sociedade civil podem utilizar para se comunicarem melhor.

Segundo Zulmira, seu envolvimento com a questão ambiental –– começou porque se sentia frustrada com o estilo altamente factual e descartável utilizado pela grande imprensa, os noticiários se esgotavam de um dia para o outro sem provocar qualquer impacto real sobre a sociedade. Isso começou a mudar quando fez sua primeira matéria ambiental, sobre um protesto contra a poluição do Rio Paraíba do Sul, foi a partir daí que a repórter passou a se interessar por cobrir mais pautas ambientais num tempo em que o assunto entrava nas grandes redações apenas quando um grande desastre ambiental acontecia.

O salto definitivo em direção ao jornalismo ambiental aconteceu quando preparou em 1991, o Projeto Gaia no sentido de transformar a TV Cultura, onde já trabalhava, numa empresa ambientalmente correta, em meio a outras propostas, havia a de criar um programa especializado em temas ecológicos. A idéia acabou sendo encampada pelo núcleo de telejornalismo da emissora para aproveitar o gancho lançado pela proximidade da Rio-92 e acabou se transformando no atual Repórter Eco.

Em 1992, o novo telejornal fez sua estréia em horário nobre e formato diário competindo diretamente com o Jornal Nacional da Rede Globo. A cobertura da Rio-92 foi o batismo de fogo e a principal fonte de pautas da equipe do novo jornal. Com o fim da conferência houve ameaças de cancelamento, mas a mobilização da equipe de produção permitiu que o programa fosse remodelado e, transformado em semanal, se consolidasse como uma das principais audiências da Cultura. De acordo com sua fala de Zulmira, um dos maiores méritos do programa nesses 11 anos foi o de transformar a ecologia em tema diário desatrelando-a dos grandes desastres. Ao privilegiar imagens da natureza intocada e experiências positivas, o Repórter Eco, nas palavras de Zulmira, “mostra que a beleza é transformadora”.

O telejornal acompanhou a transformação tanto dos movimentos ambientalista quanto da prática jornalística. Se o assunto é hoje melhor difundido e as fontes de informação a respeito se multiplicaram, especialmente a partir da popularização da Internet, nos primeiros anos manter o programa exigiu um grande esforço na construção de pontes com especialistas e ativistas. Essa dificuldade era multiplicada pelo baixo orçamento do programa, que inviabilizava a cobertura de iniciativas localizadas em áreas afastadas de São Paulo. “Antes precisávamos de um verdadeiro processo de garimpagem, enquanto hoje corremos o risco de fazer assessoria de imprensa”, constata.

Tempo e sucesso não puderam resolver, mas amenizaram ambos os problemas. Atualmente o Repórter Eco faz parte do Projeto Biodiversidade, parceria entre TV Cultura e Natura, que permitiu aos repórteres do programa viajarem mais pelo território nacional, ampliando a cobertura de iniciativa regionais. Abriu espaço também para a criação de novos programas voltados ao meio ambiente. Esse é o caso do mensal Biodiversidade Debate que reúne convidados para discutir temas relacionados às riquezas naturais do país e considerada a base de uma nova economia.

Zulmira destaca a importância dessa ampliação na área de cobertura do Repórter Eco que permitiu a descoberta de um novo mundo de iniciativas, muitas vezes de uma sofisticação insuspeita, que acontecem em pequenas comunidades afastadas dos grandes centros urbanos. Porém essas experiências voam abaixo do radar da mídia que, quase sempre, ignora aquilo que está longe das grandes audiências. Diversos projetos promissores deixam de virar notícia, mesmo porque seus participantes muitas vezes não têm idéia da importância daquilo que estão realizando. “Dessas iniciativas invisíveis está nascendo um capital social interessante”, complementa.

Como exemplo ela cita um projeto de mapeamento da agrobiodiversidade que vem sendo realizado por uma parceria entre ASPTA - Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa e do Fórum das Organizações de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais da Região Centro-Sul do Paraná, financiado pelo FUNBIO - Fundo Brasileiro para a Biodiversidade e órgãos internacionais. Só de milho crioulo, o projeto catalogou 134 variedades distintas numa área de apenas 22 municípios da região centro-sul do Paraná. Esse dado leva a jornalista a questionar a validade dos argumentos daqueles que defendem o desenvolvimento de novos alimentos transgênicos como um avanço natural da agricultura, uma vez que sequer se conhece todo o potencial genético das variedades agrícolas que já existem. Entretanto alerta que os projetos de sustentabilidade ainda produzem muito pouco do ponto de vista econômico, o que leva com que as pessoas se voltem para praticas destrutivas.

O aspecto econômico das questões ambientais ocupou um espaço importante durante sua apresentação. Zulmira acredita que as pessoas precisarão ser conscientizadas a adotarem posturas ambientalmente responsável pelo bolso. A cobrança da Taxa do Lixo pela Prefeitura de São Paulo foi destacada como uma proposta positiva no sentido de conscientizar a sociedade para o problema e motivá-la a encontrar soluções mais eficientes. “Mas o poder público não pode só criar um novo imposto. Tem que caminhar junto na criação de infra-estrutura que garanta os avanços que a sociedade faz, neste caso, a conscientização da necessidade de se reciclar o lixo”, ressalta.

Nesse mesmo sentido também se percebe um avanço por parte das empresas: à medida em que elas percebem que estão perdendo dinheiro com a poluição e a depredação de recursos naturais, “não importa se elas procuram preservar apenas por uma questão de economia, o fato deles fazerem algo a respeito é um avanço”, argumenta.

As tradicionais dificuldades orçamentárias enfrentadas pela TV Cultura sempre obrigaram a equipe de produção do Repórter Eco a encontrar soluções criativas ou inovadoras. Este foi o caso da Rio+10. Zulmira informa que a cobertura do evento poderia ter sido inviabilizada devido ao custo que um link via satélite representaria. Para contornar o problema as reportagens eram transformadas em arquivo digital e transmitidas para o Brasil através da Internet, permitindo que a TV Cultura veiculasse inserções diárias de 10 minutos com imagens exclusivas geradas na África do Sul a custos bastante reduzidos.

Ela constata avanços no plano micro ao comparar a conferência sul-africana com sua predecessora, “as iniciativas locais e regionais avançaram bastante em relação à 92”. O que ficou aquém das expectativas, porém, foi o comprometimento dos governos com a área ambiental, “ficou claro que houve uma mudança no cenário mundial que deslocou a atenção e os recursos para outras áreas”, avalia.

Para a comunicadora, poder de adaptação é imprescindível para as organizações que querem encontrar, na grande mídia, espaços onde possam divulgar seus programas e iniciativas. Os assuntos sócio-ambientais têm hoje mais espaço na mídia, embora nem sempre sejam tratados de forma adequada, ou em editorias especializadas. Eles são, por exemplo, veiculados como assuntos de economia o que, muitas vezes, deixa o viés ambiental em segundo plano. Mas isto já significa uma oportunidade para quem tem projetos sérios.O que as organizações ambientalistas precisam fazer é encontrar canais abertos que possam ser explorados estrategicamente. Outra ferramenta poderosa à disposição dessas instituições na hora de divulgar seu trabalho é a Internet. A rede criou a possibilidade para o surgimento de diversos tipos de veículos e fontes de comunicação especializadas, é precisa uma postura ativa para atingir os efeitos desejados da comunicação. Além disso, a não ser que haja muita pressão por parte da sociedade, a mídia não mudará.

25 de Julho, 2003
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