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Experiência da Educação em Agronegócios
No dia último dia 21 de outubro aconteceu mais um Fórum Liderança ABDL, dessa vez com o fellow Samuel Ribeiro Giordano que apresentou o tema "A Experiência da Educação em Agronegócios", refletindo sobre a situação da agricultura no país e sobre as atividades do PENSA - Programa de Estudos dos Negócios do Sistema Agroindustrial, criado pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA / USP) para estudar a dinâmica do setor, auxiliando na tomada de decisões estratégicas.
Giordano é o Coordenador de Educação Continuada do PENSA promovendo cursos, palestras e seminários cujo objetivo é fornecer aos profissionais do setor agroindustrial subsídios para que eles possam aprimorar suas cadeias produtivas, criando condições para a obtenção de ganhos tanto na qualidade quanto na viabilidade econômica dos agronegócios brasileiros. O trabalho do
PENSA vem, ao longo de seus 13 anos de existência, gerando frutos muito importantes num país com o imenso potencial agrícola do Brasil. São mais de 3500 pessoas, de diferentes perfis, formadas através de diferentes programas mantidos pela entidade.
Parte do impacto produzido durante anos de trabalho setorial e quase silencioso em relação à sociedade como um todo se tornou gritantemente visível a partir da mais recente, e fracassada, reunião da Organização Mundial de Comércio, quando para Brasil tomou parte da articulação internacional que questionou a postura protecionista e os subsídios concedidos pelos países ricos aos seus produtos agrícolas.
Dados apresentados durante a fala demonstram que a questão dos subsídios se tornou um ponto nevrálgico para o comércio internacional – somente na UE os subsídios chegam a quase US$ 1 bilhão de dólares por dia, o que reduz drasticamente a competitividade do Brasil e dos outros paises do G-20. Muitas das informações e dos especialistas que apoiaram essa tomada de posição pelo Brasil estão ligados ao PENSA, "o Brasil nunca esteve tão bem assessorado ou articulado nessas negociações, mas as negociações nunca deram tão errado pela falta de vontade política das potências centrais", comenta.
Giordano deixa claro que a agricultura no Brasil, para o bem ou para o mal, é feita de grandes números e distorções enormes.
Nesse sentido, ele destaca o imenso potencial desperdiçado num país que, dono de 19% de todas as terras aráveis do planeta, usa apenas 10% desse potencial. São cerca de 60 milhões de hectares (equivalente ao território da França) disponíveis para o plantio sustentável, ou seja, sem a invasão de novas áreas e a destruição de ecossistemas. Contraditoriamente, a agricultura brasileira vem invadindo cada vez mais as áreas de cerrado enquanto deixa áreas agricultáveis importantes inexplorados devido à especulação de preços com as terras.
Apesar do grande potencial deixado de lado, e de enfrentar barreiras tarifárias e subsídios nos mercados mais importantes, o Brasil continua ganhando mercados e detendo fatias
relevantes do comércio mundial de café (17%), suco de laranja (80%), açúcar (16%), soja (24%), frango (15%) e carne bovina (10%). Vem, inclusive, ganhando posições sobre competidores em diversos desses commodities.
Apesar de ocupar um lugar de destaque setor agrícola o Brasil enfrenta continua ocupando apenas um lugar muito pequeno no tabuleiro do comércio global, com minguados 1% do volume total, quando comparado com EUA e UE, que juntos têm cerca de 60 % do total. Nessas negociações, portanto ainda "é preciso muito equilíbrio e cabeça fria".
Esse crescimento vem acompanhado de oportunidades não aproveitadas como no caso da agricultura orgânica, cujo mercado, nós últimos 5 anos, saltou de US$ 8,5 bi para US$ 23 bi mundialmente. O Brasil não tem uma inserção tão grande nesse campo, com sua produção estimada US$ 291 milhões por ano. Importante notar que a desigualdade da sociedade brasileira se manifesta na dependência da agricultura orgânica em relação aos mercados externos, para onde se destinam 80% dos produtos. "Os próprios brasileiros não têm renda suficiente para consumir produtos diferenciados. Essa é uma outra contradição, os pobres comem alimentos contaminados enquanto os ricos têm comida de melhor qualidade", completa.
Quanto ao espinhoso assunto dos transgênicos, Giordano relata que os produtos geneticamente modificados vêm ganhando espaço a passos largos, a despeito de quaisquer polemicas sobre seus méritos ou riscos. Na produção global de soja, exemplo mais conhecido, os transgênicos já correspondem a 51%, embora outros produtos importantes áreas consideráveis de transgênicos. Direta ou indiretamente - e apesar das muitas leis que foram criadas para regular o plantio e comercialização - o mundo já vem consumindo organismos geneticamente modificados (OGMs) há mais de 10 anos, em muitos casos sem qualquer conhecimento por parte dos consumidores.
Para o estudioso existe certo exagero no discurso dos críticos dessa tecnologia, ao contrário do que muitos destes apregoam, não existe um total desconhecimento ou um risco imediato quanto ao impacto desses organismos, mas ainda faltam estudos de longo prazo que esclareçam os possíveis efeitos. Por uma questão de realismo Giordano defende uma regulamentação precisa para esse tipo de produto, "é uma ficção acreditarmos que é possível proibi-los porque a lei foi criada e as sementes acabaram entrando contrabandeadas e acabaram se tornando uma realidade com a qual precisamos conviver", constata.
Ele identifica um outro fator que contribuiu na criação da polêmica em torno desses organismos, que foi a natureza da 1ª geração dos OGMs. Com excessiva ênfase no controle de pragas - seja através da resistência à herbicidas químicos ou do cruzamento com genes de microorganismos que conferem à planta "resistência" à insetos - os transgênicos não apenas ganharam a fama de tóxicos como também esbarraram na complexa questão das patentes privadas.
O pesquisador acredita que se, ao contrário, essa geração inicial dos transgênicos tivesse sido mais orientada ao desenvolvimento de plantas mais nutritivas ou que trouxessem benefícios diretos à saúde humana - como no caso das linhas de pesquisa que procuram transformar alimentos comuns em vacinas - o debate seria completamente diferente.
Um dos maiores gargalos enfrentados hoje pelo setor agrícola do país está na dicotomia entre gestão técnica e a gestão econômica dos negócios rurais, em especial na questão da comercialização da produção. "Os agricultores estão quase sempre na contramão dos preços vendem quando deveriam estocar por não terem capital suficiente para construir estruturas de armazenagem. Esse problema se radicalizou durantes os anos 90 quando não houve qualquer tipo de regulação ou apoio nessa questão", diagnostica.
Giordano enxerga diversas contradições e mitos nas práticas de gestão tradicionalmente aplicadas aos negócios agrícolas que podem provocar mais mal do que bem, especialmente para os pequenos produtores. É o caso, por exemplo, da busca contínua pela maximização da produção costumeiramente apregoada pelas escolas de agronomia, mas que, em diversas situações, acaba indo contra a sustentabilidade dos empreendimentos, pois não inclui a questão da eficiência econômica.
Além desse, outro mito recorrente é o da industrialização como forma de agregar valor ao produto agrícola, mas "produzir, industrializar e comercializar, são coisas bastante diferentes e que acabam, também, acarretando em novos custos ao produtor". Há também o caso da diversificação da produção que acaba dificultando a obtenção da escala necessária para a sobrevivência dos agronegócios.
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