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Notícias de um admirável palhaço
Márcio Halla
Notícias de um admirável palhaço
No final de agosto estive no Pará, convidada para participar de atividades do Projeto Saúde e Alegria, que estava inaugurando sua nova sede em Santarém e o barco-hospital Abaré. O PSA é uma ONG que atua há vinte anos no oeste do estado, acumulando experiência incomum e com resultados notáveis num modelo de intervenção que alia saúde comunitária, economia da floresta (geração de renda), educação, cultura e comunicação. Na área de trabalho do PSA a mortalidade infantil foi reduzida a 23 por mil nascidos vivos, enquanto a média regional é de 63 por mil.
Talvez o mais interessante e original do PSA seja a idéia-força que o inspirou: a de que a alegria deve ser a porta de entrada para políticas sociais e ambientais. Essa alegria, que também é uma forma inteligente de diálogo com as comunidades da região, está materializada no Gran Circo Mocorongo que, segundo a própria definição de seus integrantes, mistura fantasia e realidade para educar pessoas de todas as idades, “levando Saúde & Alegria por onde passa”. Seus integrantes são médicos, engenheiros, advogados, pedagogos, jornalistas, contadores, ou seja, os próprios técnicos do PSA. Vestem-se de palhaços, dão cambalhotas, cantam, fazem teatrinho, piruetas e muitas outras incríveis e maravilhosas palhaçadas para falar sobre a importância de lavar as mãos, de escovar os dentes, de usar o pó da macaxeira, o pó da casca de ovo, de fazer a queimada controlada, de matricular os filhos. Tem a Melô da Hanseníase, o Brega do Cloro e outras cantorias para incentivar a amamentação, usar camisinha, para entender a Agenda 21, e por aí vai...
E foi em Santarém, numa praça ao lado do rio Tapajós, enquanto esperava começar a solenidade de lançamento do barco Abaré, que um desses palhaços me abordou. No início não o reconheci, sob a maquiagem, peruca azul e dentro de um macacão de listas de um lado e bolas de outro. Um segundo olhar e o sorriso, os óculos e a barba denunciaram a identidade secreta do palhaço: Márcio Halla, agrônomo, fellow do Lead e da ABDL.
Durante sete anos Márcio morou e trabalhou no Vale do Ribeira, em São Paulo, implantando projetos do Vitae Civilis e da Gaia Ambiental, entre outros trabalhos junto às comunidades rurais. Do Ribeira foi direto para o Pará, onde há dois anos faz parte da coordenação do Núcleo de Economia da Floresta (Geração de Renda) do PSA.
O PSA foi criado pelo médico Eugênio Scannavino Netto e, na sua fase inicial, tinha enfoque estrito na saúde, determinado a combater os índices elevados de mortalidade infantil causados, na maioria das vezes, pela simples falta de algumas gotas de cloro na água e cuidados básicos de saúde, tais como lavar as mãos. Depois o universo foi-se ampliando naturalmente, até chegar à concepção de desenvolvimento integrado e na busca de alternativas de geração de renda combinadas com a conservação da floresta.
Márcio chegou ao PSA para reestruturar exatamente esse componente da atuação do PSA. Hoje, o programa de Economia da Floresta trabalha articulado com o programa de organização e gestão comunitária, assim como os de Saúde e Educação, e reune os subprogramas de produção familiar e agroecologia, mulher cabocla, microcrédito, jovem empreendedor e ecoturismo de base comunitária. No “Mulher cabocla”, mulheres da comunidade de Urucuerá fazem o manejo florestal do tucumã, produzindo cestaria de alto nível de acabamento e design – a TucumArte – atingido com a ajuda de diversos colaboradores e voluntários. O grupo destina 10% dos lucros para um fundo de apoio à saude reprodutiva. O esforço do PSA agora é repassar esse conhecimento para outras comunidades e envolvê-las na criação da Cooperativa Artesanal.
De maneira geral, o grande desafio continua sendo o de dar escala para as experiências bem sucedidas, conforme Márcio enfatiza. Uma atividade bastante avançada, nesse sentido, é o ecoturismo, concebido não só como visitação às belezas naturais privilegiadas da região do Tapajós, mas também como conhecimento da realidade das comunidades amazônicas e como troca cultural. Os resultados iniciais tem sido significativos, inclusive pelo seu impacto positivo na auto-estima das comunidades envolvidas.
O programa de organização e gestão comunitária tem um papel especial, o de estruturar os processos que definem os rumos do desenvolvimento dessas comunidades. Uma rede de lideranças está sendo formada para assumir a frente desses processos. Aí também houve uma mudança progressiva de enfoque. Se antes o protagonismo era exercido pelo PSA, hoje ele está nas federações de comunidades, na sua territorialidade, que sempre existiu mas não era incorporada como elemento chave para a gestão comunitária. Duas federações foram criadas com apoio do PSA: a da Flona do Tapajós e a da Gleba Lago Grande, na margem esquerda do rio Arapiuns, que está se consolidando num projeto de assentamento agroextrativista.
Do trabalho desenvolvido pelo PSA e, particularmente, por Márcio Halla, emergem temas fundamentais que interagem fortemente com os propósitos da ABDL e têm algo de especial a ensinar, sobretudo no lugar estratégico concebido para a comunicação, como ferramenta para ensinar, articular, mobilizar e mudar. Também chama a atenção o papel da “alegria”, um símbolo da atenção aos aspectos imateriais da busca do desenvolvimento sustentável, que traz á tona as emoções e sentimentos e os códigos culturais como parte inseparável do diálogo, da melhoria de vida para todos, de um mundo pelo qual valha a pena lutar.
Não é sem razão que Márcio Halla está tão envolvido e tão “tomado” pelo seu trabalho, o que é visível no empenho com que se transforma no palhaço que puxa a fila para o Funk do Tiozão, engraçadíssima performance que mostra como é importante o banho para a saúde. Quando se olham estatísticas rigidamente, é difícil pensar em como elas podem ou poderiam ser alteradas por atitudes como essa, que de maneira tão singela e a baixíssimo custo fazem parte do grande esforço para se atingir, de fato, a tão falada sustentabilidade no processo de desenvolvimento.
Acessar o site do PSA é uma viagem muito interessante por esses valores e pelo admirável trabalho que o Márcio está desenvolvendo. Não percam: www.saudeealegria.org.br
Fotos: Cecília Ferraz, Coordenadora de Programas do Funbio
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