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A arte e moda da COOPA-ROCA no Fórum Liderança ABDL
No dia 16 de setembro de 2003 o Fórum Liderança ABDL contou com a presença de Maria Teresa Leal, fellow da 5ª turma do Programa LEAD, que dividiu com a platéia parte das experiências acumuladas ao longo dos mais de 20 anos de existência da COOPA-ROCA – Cooperativa de Trabalho Artesanal e de Costura da Rocinha.
Tetê, como prefere ser chamada, conta que, em 1981, a então professora de sociologia e arte-educação começou a se sentir incomodada e atraída pela gigantesca favela que se erguia na vizinhança de sua casa. Na época a Rocinha era apenas um aglomerado de barracos de madeira com o esgoto correndo a céu aberto, bem diferente da paisagem urbanizada que apresenta atualmente.
A aproximação começou de forma informal – com muita vontade de desenvolver algo, mas sem uma proposta definida – através d as mulheres da comunidade. Isso mudou quando Tetê recebeu uma doação de retalhos de tecido que pretendia usar com as crianças do local, mas foi impedida pelas mães que acharam melhor ficar com os retalhos. Foi dessa forma acidental que ela descobriu que aquelas mulheres, em sua maioria migrantes nordestinas, tinham trazido consigo técnicas artesanais que utilizavam em uso próprio e, eventualmente, como complemento a renda dos maridos. Logo surgiria a COOPA-ROCA com o objetivo criar renda à partir da criação de peças artesanais de alta qualidade.
Inicialmente a produção foi orientada para feiras de artes e bazares organizados em datas comemorativas, obrigando a cooperativa a longos períodos de vendas fracas. Legalizar a entidade, promover os próprios produtos através de pequenos eventos e buscar um financiamento governamental, obtido em 88 junto ao extinto Banco de Crédito Cooperativo, para a compra de uma sede foram soluções encontradas na época para aumentar os ganhos.
A primeira virada que redefiniria os rumos da COOPA-ROCA viria em 95, ano em que a moda da Rocinha começa a ganhar destaque nos grandes eventos do calendário da moda brasileira. O sucesso dos modelos artesanais no mundo fashion foi quase instantâneo, Tetê lembra que logo após a primeira participação das roupas da cooperativa no Phitoervas Fashion, editoras de revistas como Elle e Vogue bateram à porta de sua casa e literalmente disputando qual seria a primeira a conseguir uma reportagem exclusiva.
Essa também foi a época em que Tetê participou do programa LEAD e permitiu que ela se afastasse um pouco da “confusão do mundo fashion” e retomasse o contato com pessoas “que pensavam da mesma forma que ela”.
Esse primeiro sucesso permitiu a valorização dos produtos artesanais e sua inserção dentro de um mercado de classe média onde, até aquele momento, não eram devidamente valorizados. Por outro lado, outros desafios começaram a surgir desse primeiro contato com a indústria da moda permitindo muitos aprendizados importantes que acabariam levando a total reformulação do plano de negócios da entidade. Desde sua origem a cooperativa utilizava refugos doados pela indústria têxtil como matéria prima, isso obrigava não só as artesãs a separar cada um dos retalhos como vinculava a produção aos materiais disponíveis. O resultado era que as criações da COOPA-ROCA eram obrigatoriamente modelos exclusivos, que tinham muito mais valor como obras de arte do que como roupas ou acessórios e, portando, muito mais difíceis de produzir e vender na quantidade necessária. Para continuar a crescer e envolver mais mulheres era preciso reformular esse quadro.
Transformar todo o modelo de negócios não poderia ser feito pela entidade de forma isolada, era preciso criar novas parcerias. Com esse ideal Tetê organizou, em 2000, a 1ª edição da REtalhar, mostra para o qual convidou estilistas, artistas plásticos e designers a criarem peças feitas a partir ou incorporando elementos artesanais. A intenção era criar pontes que permitissem ao artesanato fosse incorporado por criadores e empresários de modo que a COOPA-ROCA pudesse se concentrar na produção por encomenda de peças em série e insumos. Dessa época data a parceria com Carlos Miele, dono e principal criador da M. Officer, que ajudou a fixar aumentar a divulgação do trabalho da cooperativa e permitiu que ela crescesse de 16 para 60 mulheres.
Mas parceria, como viria a ficar claro depois, não é algo que não tenha também os seus problemas. Aos poucos a relação entre COOPA-ROCA e M. Officer foi se aproximando de uma exclusividade, o que não seria do melhor interesse das cooperativadas. A saída foi ampliar a base de seus clientes – uma nova edição da REtalhar aconteceu no ano passado.
Atualmente Tetê revela que estão muito próximos de conseguir um contrato com a C&A que deverá gerar um volume enorme de trabalho e mais chances de expansão, especialmente a partir da construção da nova sede da entidade, com potencial para reunir até 300 mulheres, num terreno doado por Miele e com apoio do Ministério da Cultura. “Nosso grande desafio atualmente é encontrar formas de criar pontes entre as grandes empresas. Elas não seguem a mesma lógica que orienta nossa cooperativa e isso exige pensar com cuidado o que queremos ou não aceitar”, comenta.
Além da grande dificuldade que é continuar crescendo de forma sustentável num mercado competitivo sem precisar violar os valores de trabalho humanizado e resgate das referencias culturais e artísticas nacionais que sempre orientaram a caminhada da cooperativa. Também é preciso manter a atenção voltada que as artesãs da própria COOPA-ROCA, à medida em que cresce seu número, seja cada vez mais um espaço democrático que mantenha todas as participantes envolvidas.
Nesse sentido, Tetê destaca os esforços que ela e a direção da entidade desenvolvem no sentido de manter sempre fortalecido a identidade do grupo e o processo de produção e tomada coletiva de decisões, como a promoção de além de dinâmicas de cooperativismo e a criação de critérios que beneficiem as mais participativas entre as cooperativadas. “O que estamos fazendo não é um projeto, mas uma alternativa social. Queremos fazer negócios mas negócios limpos e humanos, negócios que tenham uma ética diferente da empresarial”, resume.
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