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O “Velho Chico” atravessa o milênio em meio a debates e disputas em torno do projeto de transposição. A seguir, uma série de artigos, reportagens e links para ajudar você a se informar e posicionar nessa questão.


Cisternas garantem água potável no semi-árido

Um projeto que utiliza recursos muito simples está causando profundas mudanças na organizaçãoi do semi-árido nordestino, ao permitir que cada vez mais famílias tenham acesso direto à água potável. O Programa “Um Milhão de Cisternas Rurais” é uma iniciativa da ASA – Articulação do Semi Árido, que coordena cerca de 1000 outras organizações atuantes no sertão do nordeste. “Queremos construir, num prazo de 5 anos, aproximadamente 1 milhão de cisternas”, é o que nos conta Estevão Firmo Soares, fellow da 1ª turma do Pronord e gerente administrativo/financeiro da Coppabac, cooperativa que coordena o projeto em Alagoas.

Apesar da concepção original da construção de cisternas em massa ter partido da ASA, não existe qualquer pretensão em manter em manter essa iniciativa centralizada nas próprias mãos ou nas de suas afiliadas. O objetivo de médio e longo prazo, segundo relata Estevão, é fazer com que as comunidades diretamente afetadas pela seca assumam a iniciativa, independentemente da participação da ASA, tanto na busca por financiamentos quanto na construção das cisternas. Coisa que começa a acontecer em alguns municípios “que conseguiram recursos junto às prefeituras e ONGs e começaram a construir, sem qualquer participação nossa”, comenta.

Os recursos utilizados no projeto têm vindo do Ministério do Meio Ambiente e da Agência Nacional de Águas (ANA), mas novas linhas de financiamento estão sendo negociadas junto ao Banco Mundial. Até o momento as, pouco menos de, 13 mil cisternas construídas por todo o sertão nordestino já beneficiam cerca de 65 mil pessoas, com impacto direto na saúde dessa população. “Cerca de 80% dos problemas de saúde mais comuns na região estão ligados ao consumo de água imprópria, de forma que um real investido na melhora da qualidade da água gera um retorno de quatro reais na área de saúde.”, argumenta Estevão.

Outra vertente importante está no fato do projeto não se resumir a questão da água, mas ampliar suas preocupações na direção da construção da cidadania e da convivência com o ambiente do semi-árido. Nesse sentido, as cisternas funcionam como pano de fundo para as ambições do projeto em articular as lideranças locais, aumentando o seu poder mobilização e capacidade de pressão junto ao poder público local, além de divulgar conhecimentos que melhorem a convivência das comunidades com o seu meio-ambiente. São repassadas informações a respeito de alternativas econômicas para a região, que vão desde a criação de pequenos animais, até a construção de barragens subterrâneas. “Programas de combate à seca não resolvem, ela é um fenômeno natural e não vai deixar de existir. A solução é expandir experiências bem sucedidas. O semi-árido é perfeitamente sustentável desde que aprendamos a conviver com ele.”

Enfrentando o problema do abastecimento de água, o programa também atinge em cheio todos os beneficiados com da indústria da seca. “Uma família que tenha uma cisterna está livre das manipulações de políticos que usam o controle dos carros-pipa como arma de campanha, estamos mexendo diretamente nos currais eleitorais”, enfatiza Estevão. Para confirmar a tese, cita o caso de Pilão Arcada, município do sul da Bahia, onde o prefeito tentou destruir as cisternas para que o abastecimento de água voltasse a ser controlado por seus correligionários.

Essa multiplicidade de frentes levou a ASA a receber, em maio deste ano, o Prêmio Super Ecologia 2002, oferecido pela revista de divulgação científica Superinteressante, como melhor projeto ambiental na categoria água, vencendo cerca de 400 outras entidades.

24 de Setembro, 2002
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