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Palestra de Henrique Rattner no Seminário Liderança para Sociedades Sustentáveis


O professor Henrique Rattner construiu sua fala partindo de algumas premissas. A primeira diz que o subdesenvolvimento não é um estágio anterior ao desenvolvimento dos países, mas um processo que acompanha o desenvolvimento de alguns. Enquanto a segunda baseia-se na negação de todo e qualquer determinismo, seja os de cunho genético-racial, seja os de cunho meramente economicista.

Sobre esses determinismos, Rattner comenta que existe uma tendência de encararmos a organização do mundo capitalista como naturalmente imposta pelas leis de mercado. Acabamos nos esquecendo de que tais leis são socialmente construídas e passam de geração em geração por defenderem a visão de mundo das elites. “Elas não são leis eternas como as reveladas ao povo judeu no Monte Sinai”, ironiza.

A mesma lógica pode ser encontrada nas teorias de superioridade racial (tidas como mortas após a II Guerra Mundial mas que periodicamente ensaiam seu retorno) que tentam vincular a desigualdade social a fatores genéticos. Sem falar na espetacular resistência do darwinismo social, cuja afirmação de que os mais aptos se sobressairão naturalmente nos processos de disputa social, simplesmente ignora o fato das desigualdades preexistentes reduzirem significativamente as oportunidades individuais.

Em substituição aos determinismos, Rattner propõe que focalizemos outras prerrogativas; como a de que “os homens fazem sua história” ou “a realidade é uma construção social e pode ser desconstruída ou reconstruída conforme as necessidades”. Em que pese sabermos que ambas não passam de verdades parciais pois “herdamos situações que restringem a nossa liberdade de ação”, constata. Essa substituição é fundamental para que alcancemos a liberdade de ação necessária às mudanças sociais. Há, em nossa forma atual de encarar as coisas, uma ponta de conformismo que, segundo o professor, tende a nos fazer esperar por milagres.

Somente está mudança de mentalidade nos permitiria combater a atual polarização entre ricos e pobres. Estatísticas citadas pelo professor durante a palestra revelam que, apesar da renda per capta mundial ser de, aproximadamente, US $ 6.000, mais de 1,5 bilhão de pessoas sobrevivem com menos de US $ 300 por ano. Também alerta que não existe apenas uma situação de estagnação das diferenças entre pobres e ricos, elas têm se aprofundado ao longo do tempo. Isso se deve a um mecanismo, que Rattner chama de perverso, contido nos próprios marcos que fundamentam o sistema capitalista e leva, inevitavelmente, a concentração da renda e dos recursos. Algumas centenas de empresas transnacionais controlam metade da economia e três quartos do comércio mundial, no extremo oposto só encontramos miséria e falta. É uma ilusão que o simples aumento das taxas de crescimento possa alterar essa situação de polarização.

É esse contexto de desigualdade sobre o qual precisamos atuar, mas antes precisamos compreender o discurso e os atores que possibilitam tal concentração. Entre estes Rattner alerta para as distorções em nosso modelo democrático que não funciona em defesa dos mais pobres. Uma observação mais próxima do nepotismo revela que essa prática concentra o poder nas mãos de umas poucas famílias. “No Brasil temos exemplos demais desses casos, seja no Maranhão, seja na Bahia, seja em São Paulo”, desabafa.

Aponta também que essa mesma estrutura de monopólios familiares se reproduz em campos que se apóiam mutuamente. Este é o caso da mídia, em sua associação com o poder político, e do poder econômico privado, que financia as campanhas eleitorais. Rattner deixa claro que com seu discurso ele não fala contra a integração mundial em sim, mas contra a integração feita de cima para baixo pelas grandes corporações que encaram o ser humano apenas enquanto consumidor. Em oposição a este movimento ele aponta uma “universalização feita de baixo para cima através da articulação de movimentos populares que procurem transformar os indivíduos e grupos em sujeitos dos processos históricos e senhores de seus próprios destinos”. Mas não bastam boas intenções para que essas mudanças aconteçam, é preciso também ter profundo conhecimento desses processos e um grande senso de responsabilidade social. Além do mais não podemos agir sozinhos, precisamos do envolvimento de todas as parcelas da sociedade, mesmo as mais carentes.

Para Rattner o líder não é aquele que vai a frente dos movimentos aquele capaz de aglutinar as forças sociais em funções dos objetivos de seus seguidores. ”Um líder não deve simplesmente trabalhar para os outros, mas com os outros”, complementa. O problema central da liderança é de como manter uma relação produtiva entre os que ocupam posições de mando e os liderados que devem se beneficiar das conquistas, essa não deve ser uma relação permanente. O líder vai cumprir sua função integralmente quando transformar os seus seguidores também em líderes, nesse sentido o que buscamos é o estabelecimento de uma liderança coletiva. Rattner afirma que apesar de tais visões serem acusadas de utópicas, a história já viu muitas utopias do passado se confirmarem. “Concretizar as utopias é algo historicamente possível”, conclui

20 de Maio, 2002
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