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Palestra de Peggy Dulany no Seminário Liderança para Sociedades Sustentáveis


“O tema em discussão mais significativo no mundo de hoje é o da desigualdade”, afirma Peggy Dulany no inicio de sua palestra. Partindo da constatação de que não há possibilidade para a criação de um mundo sustentável enquanto mantivermos os atuais níveis de desigualdade. Essa questão, que tradicionalmente é ignorada, tem se imposto devido a evolução das comunicações, meios de transporte e o fortalecimento de entidades da sociedade civil cada vez mais barulhentas, como deixam claros os protestos nas reuniões da OMC. Até mesmo as elites, que costumam ser imunes a esse tipo de problema, têm abandonado sua postura passiva e se interessado mais no destino dos desfavorecidos. Então reconhecer a importância do tema da desigualdade é fundamental ao pensarmos o novo tipo de liderança que propomos desenvolver e articular.

O mero crescimento econômico já não é suficiente para minimizar as desigualdades pois, apesar de continuar sendo importante, nem chega a tocar as camadas indigentes. Peggy chama a atenção para o exemplo do próprio Brasil no qual constatarmos que, apesar do crescimento das últimas décadas, a incidência da miséria não tem mudando. São precisos, portanto, esforços complementares para diminuirmos esse problema que, além de ser moralmente inaceitável, inviabiliza prosperidade em âmbito mundial. Segundo ela o maior impasse é que “os problemas atuais são tão complexos que não podem ser resolvidos por uma pessoa ou um só grupo”. Essa consideração levou a conclusão de que, para resolver problemas de escala mundial, seria necessário criar condições para o envolvimento de todos os atores, incluindo aqueles que – seja por impossibilidade ou por desinteresse – se mantêm à margem dos processos de decisão. Nessa categoria se incluem tanto os miseráveis, sem a presença dos quais perde-se a legitimidade, quanto as elites que guardam a mentalidade de que este não é uma luta delas. Conduto, a explosão da criminalidade nos centros urbanos forçou essa última rumo a mesa de debates.

O grande problema que se estabelece nesse ponto é que “cada grupo tem estereótipos sobre os outros grupos é preciso quebrá-los para promover um certo grau de parceria”, reconhece Peggy. Essa afirmação resulta da longa experiência do Instituto Synergos na formação de parcerias – sempre procuram grupos locais para implementar suas iniciativa. Nos seus 15 anos de existência do Instituto seus membros chegaram a conclusão de que uma parceria bem sucedida carece da chamadas instituições ponte, ou seja, aquelas que têm acesso a todos os setores da sociedade e conseguem inserir cada um deles nos diálogos num clima confiança mútua. Essa constatação prática foi corroborada numa série de estudos de caso sobre parcerias bem sucedidas, realizados em 1999 na Ásia, e que fundamentaram as hipóteses sobre os 7 fatores essenciais para o sucesso de uma iniciativa deste gênero:

1 - Não se deve criar uma parceria caso o problema visado possa ser resolvido individualmente.

2 - Os grupos envolvidos devem estar em pé de igualdade. Alcançar essa equidade é um dos maiores problemas, antes mesmo que se forme a mesa de diálogos é preciso que haja um equilíbrio entre os grupos através do estabelecimento de alianças estratégicas.

3 - Todos os agentes que terão peso no processo de resolução devem ser envolvidos desde o início. Caso contrário os excluídos atacarão ou sabotarão as soluções criadas. O mesmo vale para os indivíduos envolvidos, sempre que houver trocas na formação da equipe deve-se procurar fazer com que o novato se sinta incluído o mais rápido possível. “Custa tempo incluir mas custa mais tempo excluir pessoas”.

4 - Grupos diferentes falam linguagens culturais diferentes, portanto é preciso se esforçar para antecipar como os outros participantes entenderão as terminologias empregadas

5 - Aliados existem dentro de qualquer grupo, mesmo naqueles tradicionalmente vistos com antagonistas. Quando conseguimos incluir nas discussões um membro reconhecido de um setor hostil haverá maiores chances de atrair novos representantes daquele setor. “Pares afetam os pares”.

6 - Relações informais de amizade são muito efetivas na hora de formar parcerias porque criam bases de confiança que transcendem os estereótipos e rancores entre grupos. Numa parceria efetiva é preciso formar grandes cadeias de confiança entre indivíduos de cada um dos setores envolvidos.

7 - Os mais afetados pelo problema em questão têm o maior interesse em resolve-los. Portanto, é muito importante que eles estejam representados na parceria.

Reconhecer estes fatores nos levou a descobrir que dentro destas “instituições ponte” existiam indivíduos mais inclinados do que outros a criar e participar de parcerias e que, naturalmente, tomavam para si a responsabilidade de atrair novas pessoas a mesa. Tais indivíduos logo passaram a atrair nossa atenção e passamos a criar hipóteses de quais seriam suas características mais marcantes e, concomitantemente, começamos a pensar em como aprimorar tais características no maior número possível de pessoas. Especulamos que existem cinco características principais:

1 - Baixa necessidade de projetar o próprio ego. Essas pessoas não precisam ficar com todo o crédito pelo sucesso das iniciativas.

2 - Capacidade para escutar, entender e falar outras linguagens culturais. Assim elas servem de interpretes entre grupos distintos.

3 – Empatia, elas podem se colocar no lugar do outro e imaginando os seus sentimentos. Dessa forma elas diminuem e simplificam a resolução de conflitos.

4 - Credibilidade dentro do seu grupo de origem.

5 – Facilidade para alcançar e se comunicar com outros grupos. Elas são mais sociáveis do que a média das pessoas e, dessa forma, desenvolvem uma rede de contatos nos diversos setores, rede esta que podem convocar e envolver de acordo com a necessidade. Além disso sabem reconhecer outras pessoas que tenham o potencial de ampliar os contatos para outros grupos além dos originalmente envolvidos.

Apenas recentemente o Instituto Synergos resolveu ultrapassar o campo das hipóteses e tentar desenvolver um programa de capacitação de lideranças explorando esses dados. Para concretizar essa tarefa decidiram se apoiar na experiência de grupos como a ABDL e congêneres de outros países.

Finaliza constatando as diferenças culturais dificultam a travessia dos desníveis tanto financeiros quanto de conhecimento. Uma das formas mais rentáveis de reduzir esse degrau é dar às comunidades acesso às informações e técnicas de mercado. Contudo, o grupo que controla esse tipo de conhecimento é o empresariado, justamente aquele que mais se afasta culturalmente das comunidades carentes que precisamos apoiar. A sociedade civil organizada em ONGs poderá fazer um grande papel nesse trabalho de tradução e compreensão.

20 de Maio, 2002
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