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Hazel Henderson fala sobre um novo desenvolvimento
A futuróloga Hazel Henderson é uma das principais porta-vozes do novo paradigma que vem, aos poucos, emergindo dos movimentos da sociedade civil organizada. Inglesa, radicada nos EUA, tem pontos de vista ácidos a respeito da forma como o pensamento economicista tradicional – que ela acusa estar baseado em falsas premissas – tem conduzido o mundo nas últimas décadas.
Em entrevista ao Boletim ABDL durante sua passagem pelo Brasil para participar da ICONS 2003, onde deve apresentar parte da experiência adquira no desenvolvimento dos Indicadores Calvert-Henderson, a pensadora lança suas farpas contra a economia tradicional e o “o governo fóssil” de W. Bush e preconiza um novo modelo de desenvolvimento social que já começa a parecer nos países do sul e o papel de liderança que caberá ao Brasil nesse novo cenário.
Boletim ABDL – Após sua visita ao Brasil em janeiro, quando tomou parte o último Fórum Social Mundial, você publicou um artigo afirmando que o país está em vias de emergir como um dos principais jogadores no cenário global. Uma previsão que muito lisonjeia aos brasileiros, especialmente quando ela parte de alguém que percebeu a ascensão da China à categoria de potência mundial muitos anos antes disso se tornar um fato. Quais são seus motivos para creditar esse mesmo potencial ao Brasil?
Hazel Henderson – Antes de qualquer coisa, o Brasil é um dos maiores países industriais do mundo e tem excelentes índices de exportação. O problema é que ao medirmos a riqueza do país levando em conta indicadores como o PIB, que se referenciam apenas em dinheiro, perdemos contato com grandes áreas compostas por outras formas de riqueza. Não contabilizamos os fatores culturais – que, no Brasil, já proporcionam novos produtos de exportação na forma de design, música e artes –, o capital social, a infra-estrutura disponível e o capital humano brasileiro, formado por uma população jovem e muito energética que aspira por melhorar sua condição de vida. Há também a riqueza ecológica que é vasta.
Acima de tudo o Brasil possui independência energética. Muito diferente dos EUA, onde o grande problema é justamente de dependência nesse campo. Nós já lutamos duas guerras no Oriente Médio que não teriam acontecido se não fosse pelo petróleo. Temos aqui outra parte importante da riqueza brasileira que não aparece nos indicadores tradicionais.
Já que você citou a China, meu artigo faz uma comparação entre as situações brasileira e chinesa, país onde tenho muitos amigos e estive diversas vezes. Embora a China tenha riquezas humanas e culturais realmente fantásticas, sua base agricultural é muito pequena e seus recursos ecológicos estão dilapidados quando comparados aos milhões de acres, à riqueza das florestas, ao potencial turístico das praias e aos demais recursos à disposição do Brasil.
Boletim ABDL – E que papel caberia ao Brasil como um dos líderes da política internacional?
HH – Seria uma excelente idéia se o país continuasse promovendo o mesmo tipo de inovações sociais que vem protagonizando desde da Rio 92, quando se tornou um dos líderes mundiais no debate em torno dos conceitos e definições a respeito do desenvolvimento sustentável. O Fórum Social Mundial, que começou aqui em Porto Alegre, também é muito importante. Minha sugestão é que o país capitalize todo esse aprendizado que tem feito nesse período.
Uma forma de fazer isso é a questão dos indicadores expandidos. Como se sabe, desde a assinatura da Agenda 21, 178 países concordaram corrigir as distorções geradas pelo PIB de forma a somar os recursos socioambientais e subtrair as atividades predatórias e o desperdício de recursos. Acredito que seja uma boa idéia para o mundo inteiro, se o Brasil assumisse a liderança na implementação desses novos indicadores. Simultaneamente, isso seria benéfico para o Brasil, pois mostraria para Wall Street e para o mercado de capitais que enquanto eles continuarem pensando “tal país está endividado, não será capaz de pagar ao FMI” tudo que eles terão é uma avaliação muito superficial e errônea.
Na verdade eu estava mesmo pensando em organizar uma conferência a respeito de indicadores no Brasil. Queria convidar pessoas de todo o planeta, colegas estatísticos como eu, que trabalham com essa nova geração de indicadores de forma que todos pudéssemos nos reunir e debater o assunto. Qual não foi minha surpresa ao descobrir, durante uma entrevista que eu concedi ao programa Roda Viva, que essa conferência que eu estava visualizando já estava a caminho sendo organizada por uma articulação de organizações da sociedade civil brasileira.
Boletim ABDL – Onde a economia tradicional errou?
HH – Há poucos dias fiz uma apresentação em Vitória para 15 empreendedores latino-americanos e eles me pediram para falar da questão do comércio internacional sustentável, o Brasil pode ajudar a consolidar uma nova estratégia de exportação que não se baseie na idéia de competição. A economia tradicional fala que tudo tem que ser competitivo. Por exemplo: o Banco Mundial aconselha o Brasil a exportar café, depois faz a mesma coisa com o Vietnam e, então, para um terceiro país. Logo toda essa competição deixa o mercado de café mundial completamente saturado. Essa é uma estratégia estúpida porque faz com que países demais produzam as mesmas coisas!
Se voltarmos a David Ricardo (o economista inglês do século XVIII), é a vantagem comparativa e não competitiva que ele considerava importante para o comércio internacional. Essa teoria parte de uma estratégia cooperativa, porque defende que cada país encontre um nicho onde terá a vantagem comparativa em relação aos demais. Sob esse aspecto é muito melhor privilegiar o mercado doméstico ou manter áreas de comércio regional, como o Mercosul. Seria algo muito bom para o mundo se todos os países fizessem isso.
Creio que essa situação começou a dar errado por culpa dos mercados financeiros. Quando você toma suas decisões baseando-se no mercado financeiro – com todos aqueles computadores, satélites e especuladores que movimentam US$ 1,4 trilhões diariamente – você perde todos os detalhes do que está realmente acontecendo. A visão que os mercados financeiros têm do mundo é tomada a partir de um avião a dez mil metros de altura, os jogadores desse “cassino global”, como eu o chamo, nem mesmo se interessam em saber o que está acontecendo no chão porque 90% do que eles fazem é pura especulação.
Então, sempre que um país liga seu futuro a essa loucura perde a capacidade de tomar boas decisões a respeito de sua economia doméstica. Acho muito mais importante que os países façam suas economias crescerem internamente e, para tanto, é preciso investir em sua própria população proporcionando saúde e educação. Esses investimentos, ao lado da infra-estrutura, é que vão compor os ativos nacionais e permitirem um desenvolvimento real. É isso que eu tenho proposto e acho que o Brasil está em excelente posição para fazer tal coisa por causa de seu mercado interno e de todos os ativos dos quais já falamos.
O Brasil também pode ajudar a corrigir toda essa situação se quando começar a fazer suas contas de forma correta. Se isso acontecer todos vão ver e o Brasil poderá educar o resto do mundo a fazer o mesmo! Uma vez que isso tenha sido feito será mais fácil guiar as economias em direções mais saudáveis.
Boletim ABDL – Como você analisa a fracasso do último encontro da Organização Mundial de Comércio em Cancún e a articulação dos países em desenvolvimento para enfrentar as pressões dos países ricos?
HH – Acho que foi um fato muito positivo. A OMC sempre cometerá erros crassos em suas negociações porque usa as mesmas estatísticas tradicionais incorretas e fica sem enxergar ativos não monetários como a “economia do amor” (nome que Hazel dá a diversos tipos de trabalho não remunerados, como o trabalho das donas de casa por exemplo) ou a economia informal. Ao mesmo tempo, a OMC é controlada pelas grandes potências, com suas regras criadas por corporações multinacionais guiando as canetas dos governos.
O que eu mais admiro na atuação do presidente Lula e demais representantes do G-21 é que eles fizeram algo absolutamente necessário ao dizer não haveria mais negociações até que o campo de negociações fosse nivelado e que o comércio não é mais importante que justiça social, salários decentes, respeito aos acordos sindicais ou o equilíbrio ecológico. É claro que a imprensa em muitos países diz que foi algo terrível e que os países em desenvolvimento deram um tiro no próprio pé, fizeram coisas estúpidas, etc, etc... Mas isso foi só para defender suas próprias posições de poder.
Hoje as novidades no mundo vêm todas do sul – Índia, China e América Latina – é daí que os novos modelos de desenvolvimento vão surgir e onde as novas formas de riqueza vão começar a ser exploradas.
Boletim ABDL – Grande parte do seu discurso de baseia em valores como cooperação internacional e multilateralismo, mas atualmente vivemos num mundo nitidamente unipolar e crescentemente unilateral. Os EUA continuam tão incontestavelmente poderosos quanto o governo Bush quer nos fazer acreditar?
HH – O poder econômico norte-americano é contestável, todos nós sabemos que a liberalização de mercados não está criando os valores monetários que vemos hoje. Eu acompanhei as reuniões que levaram a criação do euro e este é um projeto eminentemente político, os europeus querem uma nova moeda que possa servir de reserva global de valor porque, até recentemente, só o dólar tinha essa função. Isso conferia muito poder aos EUA, porque só eles podiam imprimir a moeda da qual todo o resto do mundo, além dos organismos internacionais, dependia.
O problema está no fato de que os EUA são os maiores devedores do planeta, mas as regras do FMI não se aplicam ao meu país. Tudo que temos feito é imprimir dólares para pagar por nossas importações. Estamos afogando o mundo em dólares e estão começando a perceber que, cedo ou tarde, não seremos capazes de pagar esses débitos em bens e serviços reais. Muitos bancos centrais já têm reservas em euros, cerca de 35% do total, o que deixa o mundo muito mais estável. Essa é uma das razões do dólar ter caído 25% em relação ao euro.
Há um ano eu mesma troquei minhas economias em dólares por euros. Lucrei bastante com isso (risos). Acontece que não sou a única que acredita que o dólar vai cair, isso só piora quando os países que têm medo do poder militar dos EUA começarem a vender suas reservas em dólar.
Os EUA detêm o poder militar, as armas. Acontece que o poder militar e as armas pertencem ao século XX, à velha política. Desde o final da II guerra mundial, todos sabemos que precisamos encontrar acordos para reduzir o número de armas porque elas se tornaram perigosas demais para usar. Por isso surgiram acordos de não proliferação de armas nucleares, biológicas e armas leves. No século atual estão surgindo novas armas, tão poderosas quanto as militares. A Internet, por exemplo, pode provocar cortes na distribuição de eletricidade, fechar sistemas financeiros, disseminar vírus eletrônicos. W. Bush e as pessoas que o cercam – eu os chamo de “o governo fóssil” pois todos eles vêm da indústria de óleo ou do carvão – acreditam que armas são a única coisa que importa e estão destruindo a economia dos EUA para comprar mais armas. Passei o último ano escrevendo editoriais afirmando que Bush está destruindo a economia com sua política de guerra global contra o terror.
Boletim ABDL – Apesar do governo Bush estar perdendo popularidade recentemente. Os neoconservadores, linha a qual atual política norte-americana se filia e que você critica, parecem ganhar cada vez mais força, especialmente após a vitória de Arnold Schwarzenegger na Califórnia. Como estancar seu crescimento?
HH – A situação em meu país é a seguinte, pelo voto popular Al Gore (candidato Democrata) teria vencido as eleições de 2000 por uma margem de 1 milhão de votos, ele também venceu na Flórida (estado que decidiu as eleições). A razão que o impediu de ser o atual presidente dos EUA é que a Suprema Corte, controlada pelo Partido Republicano, não permitiu uma recontagem dos votos. Entretanto, alguns jornais realizaram uma recontagem independente que revelou a vitória real de Al Gore. Cerca de 50% dos eleitores norte-americanos estão frustrados com essa situação, e sentem que nada tão terrível jamais tinha acontecido. Só que o 11 de setembro permitiu a W. Bush capitalizar sobre o medo generalizado. As pessoas ficaram intimidadas de dizer alguma coisa a respeito da legitimidade do governo, mas muita gente sente que ele foi o pior presidente que tivemos.
Basicamente, tudo o que tem acontecido são cortes de impostos. Na teoria esses cortes deveriam ser bons para economia e gerar mais empregos. Isso é ilusão! Na economia globalizada, se você der dinheiro para que os empresários gerem empregos eles vão fazer exatamente isso, só que em países do terceiro mundo. Tudo que ele está fazendo é dar mais dinheiro à seus amigos e apoiadores.
Esses casos têm aberto os olhos das pessoas para a profundidade da corrupção nos EUA. Nunca tínhamos enfrentado uma situação como essa, talvez por isso as pessoas tenham ficado tão confusas e passivas. Só há alguns meses começaram a surgir, especialmente através dos websites de mídia independente, verdadeiros protestos contra as políticas do governo W. Bush. Muito disso começou com quando Howard Dean se lançou pré-candidato para as eleições presidenciais, apenas usando a Internet e contando com contribuições apenas de indivíduos ele repentinamente conseguiu levantar mais dinheiro que qualquer outro pré-candidato. Finalmente as pessoas como eu estão percebendo que têm uma chance de tirar W. Bush do poder.
Creio que as pessoas de outros países devem achar a política norte-americana muito confusa. Na Europa, onde eu fui criada, as pessoas tinham que se organizar para resolver as coisas, mas os cidadãos dos EUA se habituaram a comprar uma solução para seus problemas. Se eles não gostam de crimes, então compram uma casa em condomínios fechados. De repente eles estão começando a perceber que isso não está mais funcionando direito.
Boletim ABDL – Você veio ao Brasil especialmente para tomar parte numa conferência internacional sobre a questão dos indicadores expandidos, a Icons 2003. Como os indicadores expandidos deverão funcionar? E qual o papel de um encontro como a Icons nesse debate?
HH – Existem muitas propostas e experiências espalhadas pelo mundo sobre o que poderão ser esses indicadores expandidos. Todas essas diferentes concepções estão seguindo um bom caminho, mas estava se tornando necessária uma grande conferência internacional onde se pudesse comparar cada uma delas e entrar em acordo a respeito de algumas.
Nos indicadores que eu mantenho em parceria com o Grupo Calvert, os “Calvert-Henderson Quality of Life Indicators”, escolhemos não agregar os dados de forma a transforma-los num coeficiente monetário que medisse o valor dos ativos ecológicos. Escolhemos uma metodologia não amarrada e multidisciplinar para trazer os dados num formato comum, mas não colapsados em um único número. Dessa formas as pessoas podem focar os detalhes em cada campo. Outras pessoas que estarão na Icons tentam traduzir em números os ativos ambientais e sociais e acrescentá-los ao PIB. O problema é que ao fazer isso você sai com mais um número cujo resultado não pode ser entendido pela população em geral.
Dizer que se pode reunir todas essas maçãs e laranjas num número é fazer mau uso da matemática, porque essas coisas só passam a ser quantitativas quando os economistas vão para uma sala isolada e decidem, baseados em suas próprias convicções, que mais empregos são mais importantes que ar limpo.
Talvez a coisa mais importante sobre esse acordo necessário é que ele pode nunca acontecer de forma definitiva. Na verdade isso seria um bom, porque queremos ter muitas diferenças e especificidades. Em alguns casos conseguiremos chegar a um ponto comum – e é onde vejo a contribuição da Icons –, em outros não. Os indicadores e suas metodologias se baseiam em culturas distintas, portanto haverá casos de diferenças inconciliáveis. No caso dos indicadores de qualidade de vida estabelecidos pelo no Havaí, por exemplo, o aumento da venda de relógios de pulso é considerado um mau sinal porque se elas subirem significa que ansiedade ocidental em torno do tempo está se fortalecendo. Os indicadores não devem, de forma alguma, se pretenderem globais, mas auto-referenciados em culturas e valores.
Creio que a Icons pode gerar um acordo sobre a forma como devemos medir ativos e subtrair perdas ecológicas ao contrário do que acontece no PIB, onde as perdas ecológicas acabam aparecendo como crescimento. Além disso, o PIB vê como gastos com saúde e educação que claramente deveriam ser considerados ativos, sabemos que quando investimos num jovem, em cerca de 20 anos, ele será mais um cidadão saudável e produtivo a pagar impostos. Isso deveria ficar claro de uma vez por todas.
Boletim ABDL – Os indicadores são muito bons para diagnosticar ou quantificar. Mas não temos como dizer que eles realmente revelarão algum novo problema, a maioria dos problemas é antiga, até mesmo sabemos como resolve-los e simplesmente não fazemos. Então qual é o próximo passo depois de adoção dos indicadores?
HH – Você está absolutamente certo, os indicadores só colocam velhos problemas sob os holofotes, mas os holofotes continuarão lá e ajudarão a criar a pressão política necessária, porque se a situação não melhoras os políticos acabarão fora do poder. Portanto eles só se tornarão eficientes ao atingirem a mídia de massas, porque isso tornará possível contabilizar o desempenho político dos governos e verificar o avanço em diversos campos.
Tudo isso acontece quando você consegue estabelecer esse tipo de comunicação constante com os eleitores de forma que os políticos sejam obrigados a enfrentar os lobbies que são contra as mudanças. Esse é o propósito de longo prazo.
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