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Perscrutando o horizonte de 2004

O titulo sugere um exercício de prospectiva a partir de uma análise do momento histórico atual. Vivemos um período de grandes transformações, em todas as esferas da vida social e cultural, e todas as mudanças trazem em seu bojo elementos de incerteza e insegurança quanto ao dia de amanhã. “O futuro não está mais ali”, ou seja, não se tem mais previsibilidade dos acontecimentos. Como dizia um filósofo no século dezenove, (…) “tudo que é sólido se desmancha no ar”, traduzindo o clima geral de dúvidas e desorientação presente em nossa sociedade.

Assim, voltamos a discutir e a interrogar sobre aspectos e dimensões essenciais para a nossa sobrevivência: Quem somos? Aonde vamos? Não saber as respostas seria motivo para pessimismo? Nas culturas orientais, a palavra crise é representada por um ideograma que mostra um buraco negro, no fim do qual surge um raio de luz. Portanto, sem minimizar os problemas e dificuldades da conjuntura atual, seguiremos em direção à luz.

A nossa abordagem será do geral para o particular, do contexto para o objeto específico, a partir da premissa de que “o todo é diferente da soma de suas partes”. A visão sistêmica nos permite captar melhor as relações e interações dinâmicas dos fenômenos sócio-culturais.

A segunda premissa, metodológica em sua natureza, refere à historicidade desses mesmos fenômenos, produtos de um longo processo de evolução não-linear, caracterizado por contradições e conflitos que permeiam a todo o sistema e assim, dificultam prognósticos mais acurados quanto ao desfecho de situações problemáticas.

A terceira premissa logicamente decorrente, afirma a construção social da realidade ou, (…) “os homens fazem sua história, embora em condições e circunstâncias herdadas, não por eles criadas”. Recusamos as interpretações fatalistas que tornam a espécie humana em objeto de determinações de poderes sobrenaturais e infindáveis, aos quais se deve sujeição e obediência cegas...

“Os seres humanos são condenados a serem livres”, dizia Jean-Paul Sartre. Ser livre significa escolher - fazer opções e assumir responsabilidade pelo que fazemos e pelo que deixamos de fazer. Ao fazermos nossas opções e escolhermos nosso caminho, atribuímos significados à nossa vida e encontramos razões e sentido por nossa existência. No estágio alcançado pela evolução da humanidade, o “homo culturalis” - criador de cultura - não pode viver sem significados, objetivos e valores, sem os quais o mundo se transforma em lugar de angustia, alienação, tédio e violência. Talvez nisto resida a raiz da busca incansável do ser humano, para responder às indagações existenciais - “quem somos, aonde vamos?” - e para descobrir e compreender a “ordem” subjacente à vida.

Partimos do contexto histórico-estrutural que configura a trajetória das sociedades contemporâneas, em suas lutas pela emancipação social e cultural.

Terminou a era de confrontação bipolar, com o desmoronamento da ex-União Soviética. Alguns historiadores, precipitadamente, anunciaram “o fim da História” e a vitória do Capitalismo.

Entretanto, ignorou-se a ascensão e expansão do capital financeiro que se apropria do Estado e o submete aos seus interesses, na busca incansável por mais lucros exorbitantes. Não recua diante a depredação do meio ambiente e da exploração desenfreada da mão-de-obra mediante a flexibilização e precarização do trabalho. Em sua penetração em todos os rincões do globo, o capital financeiro destrói as comunidades tradicionais e empobrece as populações rurais e urbanas. Enquanto estimula um individualismo consumista desenfreado, causa exclusão em massa, através de desemprego e subemprego de centenas de milhões de pessoas. Mas, assim potencializa a acumulação e reprodução de capital que concentra o poder decisório nas mãos de poucos gestores e executivos cujas tão badaladas eficiência e competência ficaram profundamente estremecidas por uma série de operações ilegais e escusas (vide os casos da Enron, World Com, Tyco, Vivendi e Parmalat) que causaram prejuízos incalculáveis aos consumidores, acionistas e à economia em geral.

No cenário internacional, a centralização do poder econômico, político e militar ficou configurada pela conquista de hegemonia norte-americana após a 2ª Guerra Mundial. A concentração de poder em um só país desequilibrou as relações internacionais e tornou a ordem mundial extremamente vulnerável e imprevisível. A irresponsabilidade dos governantes da maior potência mundial, que se arvoram em defensores da democracia representativa, ficou ilustrada pela recente devastação do Afeganistão e Iraque. Sua propalada reconstrução, enquanto proporcione lucros enormes às empresas americanas, irá arrastar-se por décadas, sacrificando as atuais e futuras gerações desses países.

O que não foi percebido ou devidamente interpretado, é a ascensão da China continental como nova superpotência que, junto com o Japão, induziram o deslocamento do eixo geoeconômico principal do Atlântico para o Pacífico, com conseqüências dificilmente previsíveis, para o novo século. Afinal, nos últimos séculos, a história da vida econômica, cultural e política desenvolveu-se nas margens do oceano Atlântico. Um dos aspectos mais significativos da reorganização econômica e estratégica do mundo atual é o deslocamento de seu eixo principal para as bordas do Pacífico.

Essas transformações políticas ocorrem quase simultaneamente com a expansão e penetração do capital em praticamente todos os territórios do mundo, integrando atividades econômicas e culturais em escala planetária. Diariamente circulam pelo espaço virtual mais de US$ 1 trilhão, sem fiscalização ou controle, arruinando pequenas empresas e devastando as poupanças populares, enquanto faz a fortuna de poucos privilegiados.

Contudo, esse movimento tentacular de globalização da economia não está isento de contradições e contramarchas. Paralelamente à criação de mercados comuns e associações de países como a União Européia, NAFTA ou Mercosul, verificou-se a desintegração e fragmentação de países (ex-União Soviética, Iugoslávia, etc.) seguidas de intermináveis conflitos de fundo étnico, religioso e nacionalista, marcados pelo uso de violência extrema.

Mais grave ainda, cresceu a tendência à polarização e exclusão, dentro e entre as sociedades, mesmo as mais ricas, revelando os paradoxos e contradições do desenvolvimento capitalista. O Produto Mundial Bruto (PMB) - total das riquezas produzidas anualmente no mundo - ultrapassou os US$ 30 trilhões, mas o número dos que vivem abaixo da linha de miséria absoluta passou de um bilhão de pessoas. Nunca se produziu tantos alimentos e nunca houve tantos famintos em todos os continentes, sobretudo na África, América Latina e Sul da Ásia. Gastam-se somas fabulosas em pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico, enquanto cresce o número de analfabetos e ignorantes.

Embora o progresso técnico proporcione os meios de aproximação entre povos e culturas, criando verdadeiras redes globais de informação e comunicação, ideologias retrógradas e fanáticas inspiram lutas fratricidas em um círculo vicioso de violência destrutiva.

Como explicar esse recrudescimento da intolerância e da violência, de perseguições e massacres, em escala e proporções inimagináveis, neste “fim da História”? Parte da responsabilidade pelo descalabro da ordem mundial deve ser atribuída ao fracasso das promessas de “desenvolvimento” sob a égide do Estado-nação. Os países retardatários no desenvolvimento nacional capitalista não foram capazes de superar o fosso que separa os pobres dos ricos, os ignorantes dos instruídos, os fracos dos poderosos. O desencanto do Estado, da política e das ideologias secularizadas abriu as portas a um retorno em massa à fé religiosa, em sua forma mais militante e fundamentalista que não somente rejeita o diálogo, mas nega aos “outros” o direito a uma existência pacífica e produtiva.

Não podemos deixar de apontar os problemas sociais do processo de modernização, conseqüência das transformações tecno-econômicas, e fator agravante da tendência à polarização e exclusão. São amplamente conhecidos os efeitos do progresso técnico que libera a mão-de-obra, historicamente expulsa ou transferida da agricultura para indústria e desta para o setor de serviços, nas últimas décadas. O advento de um novo paradigma tecno-econômico, exigindo menos matéria-prima, energia e espaço para máquinas e equipamentos automatizados, expulsa inevitavelmente mão-de-obra, com poucas possibilidades de resgate e reincorporação ao processo produtivo. É verdade, no início do século dezenove, os operários na indústria têxtil da Inglaterra passaram por problemas semelhantes, o que os levou a destruir as máquinas que roubaram seus empregos e o pão de seus filhos.

Não é possível retornar a roda da História. Os incontáveis sacrifícios e sofrimentos impostos às populações trabalhadoras, os custos não contabilizados da depredação de comunidades rurais e urbanas, com a perda de valores e costumes tradicionais face ao avanço impetuoso de um estilo de vida que enaltece a competição, o individualismo e o consumismo desenfreados, parecem indicar os limites da missão civilizatória do capitalismo.

A internacionalização da economia, a desregulação e a liberalização do comércio enfraqueceram as bases do Estado-nação, que perde paulatinamente sua posição de marco de referência jurídico-legal e político, a partir do qual se organiza a vida em sociedade. Incapaz de atender as necessidades básicas de contingentes crescentes da população, dos desempregados, desabrigados e dos sem acesso à educação e cultura, o Estado também não consegue mais arrecadar recursos suficientes para prover empregos e cuidar da segurança de seus cidadãos. Seguindo as injunções do neoliberalismo, num “laissez faire, laissez passer“ perverso, não se planeja mais investimentos de forma integrada e racional, visando induzir o desenvolvimento setorial, regional e nacional.

Efetivamente, qual é o valor do planejamento e a possibilidade de controle sobre os movimentos dos capitais, se transações comerciais e financeiras são realizadas via computadores e satélites, importando-se do exterior e pagando-se contra bancos sediados em paraísos fiscais? Mais problemático ainda é o caso da defesa do território nacional contra inimigos dotados com capacidade destrutiva transportada por foguetes a centenas ou milhares de quilômetros de distância.

No mundo globalizado e informatizado, o nacionalismo estreito que se estriba no volume de produção industrial e bélica (vide o exemplo da ex-União Soviética), no número de habitantes ou das forças armadas, perde sua razão de ser e sua capacidade de evocar sentimentos de identificação e solidariedade. O que faz a força das comunidades modernas é a qualidade de vida de suas populações, aferida pelos índices de desenvolvimento humano, a educação, a liberdade (e responsabilidade) de seus cidadãos que encontram no legado histórico, nas tradições e nos valores éticos de sua cultura as razões mais fortes para manter-se unidos e solidários. São essas nações livres, mais igualitárias e autônomas que são capazes de estabelecer laços de cooperação, num espírito de respeito aos “outros”, de cor, religião ou cultura diferentes e com mais propensão a apoiar os esforços de desenvolvimento humano entendido como “liberdade de opção”, em todas as regiões do mundo e em todas as esferas da vida.

A partir de 2001, surgiu o Fórum Social Mundial, um espaço aberto para reflexões críticas, debates democráticos de idéias, intercâmbio de experiências e formulação de propostas que tendem a criar e fortalecer os laços que levem a ações coletivas de grupos e movimentos solidários da sociedade civil. O denominador comum a esses movimentos é a oposição ao neoliberalismo, à exploração econômica e a dominação política e militar ilegítima. Seu objetivo central, ainda que difuso, é a construção de uma sociedade humana livre, democrática e mais justa.

22 de Julho, 2004
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