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O Sol brilha no Oriente

Enquanto os mercados ainda sintam os efeitos da pior crise financeira das últimas décadas e ronda o temor de uma nova recessão, a mídia chinesa divulga “a idade de ouro de desenvolvimento” para os países asiáticos. O PIB (produto interno bruto) chinês cresceu durante o primeiro semestre de 2010 a uma taxa de 11,7% comparada com a do ano anterior. E, os recém industrializados “tigres” – Coréia do Sul, Taiwan, Hong-kong e Cingapura – bem como quase todos os países do sudeste da Ásia parecem plenamente recuperados da crise econômica que varreu o mundo em 2008 -2009. Mesmo a Tailândia, conturbada por graves problemas políticos, cresceu 9,1% no segundo trimestre de 2010. Pode parecer que estes países estejam imunes à crise dos países ricos do Ocidente. Afinal, a China conseguiu superar o Japão, alcançando a posição da segunda maior economia do mundo e poderá continuar a estimular as economias desta região.

Efetivamente, a região do sudeste asiático passou por profundas transformações, desde o ingresso da China na OMC – Organização Mundial de Comércio – e sua ascendência e hegemonia econômicas evoluíram mais rapidamente do que em qualquer outra parte do mundo, apesar de manter um déficit na balança comercial com os parceiros regionais. A China é atualmente o maior parceiro comercial da Austrália e da Índia; é o maior mercado para as exportações japonesas, coreanas e taiwanesas, é o segundo maior importador da Malásia e Tailândia e o terceiro da Indonésia e das Filipinas. A visão otimista da “idade de ouro” tem permeado as deliberações do “Sexto Fórum Beijing – Tókio”, realizado recentemente na capital japonesa.

Entretanto, convém adotar certa cautela ante o otimismo triunfalista. Algumas das altas taxas de crescimento no sudeste asiático são devidas também às baixas bases sobre as quais foram calculadas. Assim, a taxa de Cingapura de 17,9% no primeiro semestre de 2010 parece menos espetacular quando comparada com a taxa negativa de 5,3% no ano anterior. Quando houve a queda geral do comércio em 2008 – 2009 as taxas de crescimento da região também caíram. A estreita dependência do comércio continua: à parte da China e da Índia cujas taxas de crescimento no segundo trimestre de 2010 alcançaram 8,8%, os outros países da região continuam dependentes da demanda externa. Apesar do aumento das vendas para a China, os mais importantes mercados para as exportações continuam sendo os G-3, os Estados Unidos, a União Européia e o Japão. As exportações dos países asiáticos para a China podem ser divididas em três categorias: O Japão e a Coréia do Sul nela encontram um imenso mercado para bens de capital, máquinas e equipamentos. Austrália e Indonésia fornecem “commodities” e matérias primas como carvão, estanho, minério de ferro e óleo de palma. Muitos países asiáticos exportadores vendem componentes partes de uma cadeia de suprimentos que reaparecem depois como produtos montados “Made in China” nos mercados compradores. Estimativas feitas na Malásia, por exemplo, apontam que 60% de suas exportações para a China são destinados a produtos vendidos nos G-3. Esta percentagem não passa de 30% das re-exportações de componentes da Indonésia. O Banco de Desenvolvimento da Ásia analisa a interdependência e importância da China no comércio regional, embora continue sua dependência da economia mundial. Outros estudos sobre a importância da China no comércio da região apontam para o número crescente de turistas, as oportunidades de investimentos e a demanda por serviços como fontes de otimismo para os homens de negócios da região.

Realmente, após três décadas de crescimento, o PIB da China apresenta apenas 10% do PIB nominal global, mas com a expansão de seu mercado interno e a contínua absorção de dezenas de milhões da população rural que migra para o mercado urbano – industrial tornando se consumidores com poder aquisitivo, o avanço da China e, com ela, dos países da região do sudeste asiático parece destinado a alterar a relação de forças econômicas, com o deslocamento do principal eixo de produção, comércio e serviços para o Oriente.




A tabela acima constitui uma demonstração eloqüente do dinamismo das economias da região, sobretudo quando comparada ao fraco desempenho dos países da OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. A comparação entre os dois blocos fica ainda mais desfavorável quando os valores são contabilizados pelo PPC (PPP) – paridade do poder de compra. O PIB da China eleva se a 10 trilhões de US dólares contra 14 trilhões dos EUA. Ao continuarem as atuais tendências, dentro de dez anos a China ultrapassará os EUA como primeira potência econômica do mundo. Os países do leste e sudeste asiático, com exceção do Japão, dispõem de uma força de trabalho jovem e ávida de ingressar no mercado de trabalho urbano – industrial como consumidores, alimentando o circuito “virtuoso” de investimento e crescimento econômicos.

Outro fator que pesa na comparação com o Ocidente é o volume de reservas em divisas – leia se em US dólares – dos países asiáticos. China, Japão, Coréia do Sul, Taiwan e os “tigres” menores, Hong-kong e Cingapura detêm 75% das reservas mundiais em cambiais, grande parte em conseqüência do endividamento dos Estados Unidos e seu déficit no orçamento público. As cifras das respectivas balanças comerciais e de contas correntes levam à inferência inevitável da transferência da dinâmica do desenvolvimento para o Oriente. Segundo as estatísticas das Nações Unidas, os países em desenvolvimento detêm 4,3 trilhões de US dólares em reservas das quais a China tem dois trilhões, a Índia 300 bilhões, o Japão 993 bilhões, a Rússia 433 bilhões e a Coréia do Sul 264 bilhões. Como uma espécie de seguro contra impactos externos, foram criados “fundos soberanos” cujos maiores detentores são os Emirados Árabes Unidos com 875 bilhões de US$, a Noruega com 341 bilhões, Cingapura com 330 bilhões, Arábia Saudita com 300 bilhões e o Kuait com 300 bilhões. Segundo o jornal “Valor Econômico” de 28/01/10, a maior parcela desses recursos está concentrada em seis países: China, Japão, Taiwan, Coréia do Sul, Rússia e Cingapura, o que confirma a nossa tese sobre o deslocamento futuro do principal eixo de atividades econômicos do Atlântico para o Pacífico.

São Paulo, setembro de 2010

06 de Outubro, 2010
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