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Afeganistão – outra guerra perdida?
A demissão do comandante em chefe das tropas americanas e da OTAN – Organização do Tratado de Atlântico Norte - no Afeganistão levanta de novo a questão sobre o possível desfecho do conflito naquele país. Será que a coalizão liderada pelos norte-americanos, que conta atualmente com 100.000 soldados, ainda poderá ganhar esta guerra que se arrasta há mais de nove anos, o mais longo conflito militar travado pelos Estados Unidos em sua História? Mais de 1000 soldados já perderam a vida e 6000 foram feridos, mas o inimigo, o Talibã, está mais ativo, assassinando chefes tribais e intimidando a população civil. Pesquisas feitas nos distritos afetados evidenciam pouco apoio popular ao presidente Hamid Karzai e mais de um terço da população apoiariam os combatentes do Talibã. Pior ainda, a luta contra o terror parece estimular o recrutamento de mais terroristas entre a juventude islâmica, que acusa os Estados Unidos de lutar contra o Islam, ao apontar o conflito longe de terminado no Iraque, no Afeganistão e o apoio irrestrito a Israel, em sua luta contra o Hamas e o Hezbolah.
Desde novembro de 2009, quando Obama prometeu enviar mais 30.000 soldados para reforçar o contingente militar no país, poucos avanços foram realizados. O plano do general Mc Christall foi um ataque que tiraria a iniciativa do Talibã e criaria um espaço para o governo de Hamid Karzai, com o apoio das forças armadas e da polícia. Isto não ocorreu. O distrito de Marja, escolhido para testar a estratégia, foi qualificado por Mc Christall como uma “úlcera sangrenta”. Esperava-se a demissão do corrupto meio-irmão de Karzai, mas ele permanece no comando de Kandahar, a segunda mais importante cidade do país. Fica para os americanos, portanto, o ônus de provar que a estratégia de contra-insurgência possa funcionar, após os estragos causados nos últimos anos. A entrevista desastrosa do general para os jornalistas de Rolling Stone revelou o abismo que separa os militares dos políticos do Congresso norte-americano e a falta de compreensão da História e das tradições culturais do país, dos dois lados.
O Afeganistão, pomo de discórdia e cobiçado pelas grandes potências, tem importância estratégica e econômica desde os tempos pré-históricos, por controlar a “rota da seda”, a passagem do Kyber Pass, nas montanhas de Hindu Kush, a 4000 metros de altitude. Foi conquistado por Alexandre Magno no século 4º a.c., depois pelos árabes no século 7º e foi devastado pelos mongóis no século 12 e 13º, a cuja retirada seguiu-se um longo período de lutas tribais. Somente em 1747 o país foi unificado por um líder afegão da dinastia Durrani, estabelecendo sua capital em Kandahar. Desde o início do século 19, um conflito de interesses entre os imperialismos inglês e czarista levou a novas lutas que terminaram com o controle da política externa do país pelos ingleses, em 1879, preocupados em assegurar o caminho para as Índias. Após um interregno curto de um governo central sob os herdeiros de Abdurrahman, em 1953, o general Muhammad Daud Khan tomou o poder, tornando-se primeiro ministro até 1963, conseguindo neste período ajuda econômica e militar da ex-União Soviética. Novamente, um golpe militar em 1973 depos a monarquia e levou Daud ao poder até 1978, quando foi assassinado e proclamada a República Democrática do Afeganistão, governada por um conselho revolucionário sob a presidência de Nur Muhammad Taraki. Apesar das tensões e conflitos nas áreas rurais, o novo regime iniciou uma série de reformas, interrompidas após o assassinato do embaixador norte-americano, seguido de outro golpe, no qual o presidente Taraki foi fuzilado por uma facção que tentou obter o apoio dos EUA. Em dezembro de 1979, tropas soviéticas invadiram o país, o que despertou a formação de um movimento de guerrilheiros – os mujaheddin - armados pelos americanos para combater os soviéticos, numa “guerra santa”, cujas conseqüências perduram até nossos dias. Milhões de afegãos fugiram do país para o Irã e o Paquistão. Em 1989, as tropas soviéticas abandonaram o país deixando sua infra-estrutura totalmente destruída e o país politica e profundamente dividido por conflitos sangrentos entre tribos e facções rivais, às quais vinha sobrepor se o Talibã, movimento islâmico radical que passou a ocupar os espaços liberados pela retirada das tropas soviéticas.
O Talibã impôs à população as leis estritas da Sharia, banindo mulheres de escolas e funções públicas e armando uma milícia militar radical e anti-ocidental, em cujo território abrigou-se o grupo terrorista de Al Qaeda, responsável pelos atentados que derrubaram as torres do World Trade Center em Nova Iorque e uma ala do Pentágono, em Washington D.C. A reação imediata do governo de G.W.Bush foi a invasão do Afeganistão, dando início à mais longa guerra travada por tropas norte americanas.
Seria demais esperar que o presidente norte americano conhecesse a História do Afeganistão e a cultura e tradições deste povo sofrido. Mas, após quase dez anos de conflito, com bombardeios maciços que ceifaram a vida de inúmeros civis, destruíram suas casas e lavouras e causaram um novo êxodo de milhões de refugiados, é lícito indagar sobre os objetivos da ofensiva norte-americana e avaliar os resultados alcançados até este momento, meados de 2010. É nesta perspectiva que deve ser colocada a insatisfação das tropas e a manifestação depreciativa de seu comandante com referência aos políticos em Washington D.C. Poucos afegãos e paquistaneses estão dispostos a apoiar o esforço militar da OTAN e, sem o apoio da maioria da população, não haverá fim do conflito.
Não seria mais racional retirar todas as tropas do Afeganistão? O objetivo inicialmente declarado de impedir Al Qaeda de encontrar um abrigo na fronteira com o Paquistão foi abortado com a expansão de um contínuo recrutamento de novos combatentes no Yemen, Somália e no Paquistão que encaram os atentados e a resistência como atos heróicos, o que parece inviabilizar uma vitoria decisiva no Afeganistão. Mas abandonar o país levaria ao desastre de uma guerra civil capaz de envolver os países vizinhos, inclusive o Irã, Paquistão, Índia e Rússia. A derrota seria percebida no mundo como sinal de fraqueza e de humilhação dos Estados Unidos e do ocidente. Ademais, há uma obrigação moral, após a invasão e destruição de grande parte do território, de restituir o país à sua população em condições mínimas de funcionamento e livre da dominação cruel do Talibã.
O general Mc Christall e seus oficiais têm manifestado abertamente seu pessimismo quanto à possível retirada das tropas em fins de 2010 e o desfecho geral do conflito no Afeganistão, numa situação bastante similar à do Iraque. A nomeação do general David Petraeus como comandante chefe das tropas aliadas autorizaria uma esperança no sucesso da contra-insurgência, supostamente bem sucedida no Iraque? A maioria da população nos distritos mais afetados pelas atividades do Talibã está contra o governo de Hamid Karzai e, também, contra a presença dos militares americanos e seus aliados, que mudaram a tática após despejarem milhares de bombas que atingiram indistintamente civis. Os responsáveis pelas atrocidades foram punidos e ordens de Washington exigem, tardiamente, a revisão dos casos de prisioneiros feitos.
Os principais inimigos da OTAN – o Talibã e dois outros grupos de insurgentes aliados à Al Qaeda e liderados por chefes tribais que lutaram contra os soviéticos – estão abrigados em território montanhoso e de difícil acesso no Paquistão, o que os torna praticamente invulneráveis aos ataques das tropas da OTAN. Contudo, o presidente Obama prometeu começar a retirada das tropas em julho de 2011, embora os conflitos inter-tribais sejam cada vez mais freqüentes e a onipresença do Talibã se faça sentir em todo o país, ameaçando e frequentemente assassinando aqueles que colaboram com as autoridades de Kabul. Até que ponto esta situação desastrosa e insegura leva os afegãos a juntar se aos Talibãs, mantendo sua suspeição quanto aos objetivos dos “estrangeiros”? Em resumo, a situação parece deteriorada ao ponto que parece haver poucas chances de melhora em médio prazo. Por isso, há cada vez mais vozes nos EUA e nos países europeus que participam da OTAN que exigem um acordo negociado para terminar o conflito. Correm, também, boatos sobre manobras diplomáticas entre lideres afegãos e paquistaneses visando um acordo de paz separado, deixando de fora as tropas da OTAN e norteamericanas. Mas os Talibãs não estão com pressa para negociar. Sua posição atual é forte e o melhor que se pode esperar é enfraquecê-los o suficiente para consentirem sentar-se à mesa de negociações. Será esta a tarefa para a qual foi chamado o general Petraeus? Para os norteamericanos isto significaria a perda de mais uma guerra. Lyndon Johnson amargou a derrota no Vietnam e Bush recusou-se, contra a opinião de seus generais, a admitir que a guerra no Iraque estivesse perdida. O drama de Obama, à semelhança de Johnson, é como conciliar objetivos visceralmente contraditórios de construir uma sociedade liberal e democrática e, ao mesmo tempo travar uma guerra implacável. Obama prometeu conduzir a guerra “justa” no Afeganistão, diferente da mal justificada, pela mentira de armas de destruição em massa, no Iraque. Mas, como celebrar a paz após a invasão do país, tendo destruído sua infra-estrutura, matando inúmeros civis, atingindo escolas e hospitais e causando a fuga de milhões de pessoas as quais, como refugiados, literalmente apodrecem em campos precários nos países vizinhos? E, tal como no Iraque, também o Afeganistão ficaria profundamente dividido por conflitos entre etnias, tribos e bandos armados, inclusive o Talibã, muito longe de uma sociedade pacificada e organizada.
As lições, tanto do Iraque quanto do Afeganistão, são claras, embora a superpotência militar e econômica recuse-se a admiti-las: as guerras convencionais baseadas na superioridade de armamentos sofisticados não são mais instrumentos adequados para vencer a luta contra guerrilheiros que contam com o apoio de grande parte da população sofrida pelas invasões das últimas décadas e aspirando unicamente à paz.
São Paulo, julho de 2010
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