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Do “3º Mundo” aos “países emergentes”: novos cenários na economia e na geopolítica internacional

A origem do conceito data de um sistema de classificação das Nações Unidas para distinguir entre os países capitalistas desenvolvidos - o Primeiro Mundo liderado pelos Estados Unidos, os países comunistas – o Segundo Mundo – comandados pela ex-União Soviética e os países restantes, subdesenvolvidos – o Terceiro Mundo. O Terceiro Mundo incluía praticamente toda a África, com exceção da África do Sul, a Ásia, exceto o Japão e os países da América Latina. Surgiu tardiamente na política internacional, com o fim da colonização que levou à independência a maioria dos países desses continentes, nas décadas de 50 e 60.

Os problemas comuns – pobreza e subdesenvolvimento – e a experiência histórica comum da exploração colonialista levaram à formação de um bloco em foros internacionais, particularmente nas Nações Unidas, apresentando um conjunto de reivindicações sobre a reforma do sistema econômico internacional dominante. A reforma proposta ficou conhecida como a Nova Ordem Econômica Internacional. Semelhante ao conceito “países em desenvolvimento”, a definição de Terceiro Mundo foi imprecisa e insatisfatória por abranger uma grande variedade países com condições econômicas, sociais, políticas e culturais distintas e, sobretudo, por envolver uma conotação pejorativa.

Em abril de 1955 reuniu-se em Bandung, Indonésia, a 1ª Conferência de países asiáticos e africanos não alinhados. Participaram da Conferência 27 países – Índia, Indonésia, Egito, República Popular da China, Turquia, Israel e outros, com a presença de observadores de outros países que ainda não tinham conquistado sua independência. Os princípios fundamentais defendidos pelos participantes foram o fim do colonialismo, os direitos de todos os países à autodeterminação e a liberdade de escolha de seus sistemas políticos próprios.

O conceito Terceiro Mundo originalmente não se referia à geopolítica. Quem o definiu, no sentido moderno da palavra, foi o demógrafo francês Alfred Sauvy, ao estabelecer um paralelo entre o 3º estado, o povo, ao lado da aristocracia e do clero, durante a Revolução Francesa. Em 1952, Sauvy escreveu... ”o Terceiro Mundo, como o 3º estado de 1789, é explorado e ignorado e quer tornar-se, também, uma entidade presente e respeitada. Ele estava parafraseando o abade Emmanuel Joseph Sieyès, delegado à Assembléia Geral, que proclamou: “O 3º estado é tudo; não tem nada e quer tornar-se algo”. Aplicado às reivindicações do Terceiro Mundo, dir-se-ia que buscavam mais poder econômico e político. Entretanto, na dinâmica da Guerra Fria, os países do Terceiro Mundo tinham pouco espaço para manobras independentes, sendo pressionados a aliar-se ora a um, ora ao outro lado, para não serem malhados entre as duas superpotências.

No começo de 2010, o presidente do Banco Mundial declarou, com algum atraso, que o ano de 2009 marcou o fim do que era conhecido como Terceiro Mundo, pobre, dependente e ignorado no cenário político. Embora o conceito tenha saído de circulação muito antes, vale a pena analisar a afirmação. Enquanto o mundo rico tropeça para sair da recessão global, a Ásia, África e a América Latina estão acelerando seu crescimento e sua contribuição à economia mundial. As economias em desenvolvimento estão se transformando. Desde 2008, segundo o Banco Mundial, foram elas que mais contribuíram para o crescimento econômico global. Em 1980, elas representaram 33,7% do PIB mundial, em termos de paridade de poder de compra. Em 2010, sua parcela será de 43,4%. Países como a Turquia e o Brasil, assim como outros países estão tentando escapar da influência dos Estados Unidos, sempre cultivada pelas elites tradicionais.

Mas o fosso entre ricos e pobres continua e até aumenta, não importa a terminologia utilizada. O Terceiro Mundo transformou-se em “países em desenvolvimento” e, depois, em “países menos desenvolvidos”, no que se refere ao comércio e seu peso nas Nações Unidas, onde esses países estão recebendo tratamento diferente na convenção sobre mudança climática, com menos obrigações de reduzir suas emissões de CO2. A União Européia mantém um acordo especial sobre comércio e ajuda ao desenvolvimento com 79 países pobres.

O mundo continua dividido entre países ricos – agora são os G-20 em vez de G-7 – e os países pobres e as ONGs (Organizações Não Governamentais) receiam que as palavras do presidente do Banco Mundial passem a encorajar os países ocidentais a reduzir sua ajuda ou a negligenciar a pobreza reinante no resto do mundo. Mais de 1 bilhão de pessoas sobrevivem com menos de um US dólar por dia, mais em termos absolutos do que na época em que o conceito foi cunhado. Mesmo na Índia e no Brasil, países que aparentemente escaparam do Terceiro Mundo, o número de pobres continua muito elevado. E mais de 60 países mantém características da situação pós-colonial: dependência de ajuda externa para alimentar sua população, violência, nepotismo e corrupção, o que parece invalidar a afirmação peremptória do presidente do Banco Mundial.

Mas, agora são os países ricos, sobretudo os PIIGS – Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha – que têm enormes déficits orçamentários e mesmo o Fundo Monetário Internacional concorda com a necessidade de controle da movimentação de capitais e a de políticas industriais corretas. Os mercados dos países emergentes, notavelmente dos BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China – não são mais dependentes de ajuda dos países ricos. A China, com reservas de mais de 2,4 trilhões de US dólares, decidiu financiar refinarias de petróleo na Nigéria, no valor de 23 bilhões de US dólares, o dobro da ajuda à África nos últimos cinco anos. Embora as economias pobres dependam de mercados nos países ricos, a recuperação revelou sua maior resiliência na crise, devido a suas políticas econômicas e financeiras e o comércio entre si, que os protegeu contra os efeitos devastadores da crise mundial. O comércio entre países em desenvolvimento e os BRICs aumentou duas vezes mais do que o comércio mundial. Mais impressionante é o fato que o crescimento econômico moveu-se para o sul enquanto o endividamento seguiu em sentido oposto. A dívida pública bruta dos países ricos está aumentando de 75% do PIB no começo da crise em 2007, para 110% em 2015, segundo o Fundo Monetário Internacional, enquanto a dívida nos países “emergentes” oscila ao redor de 40%. Como resultado desta tendência, os países mais cautelosos do ex-terceiro mundo se tornaram mais propícios aos investimentos do que os do primeiro mundo. As tabelas de classificação segundo os riscos potenciais para investidores indicam África do Sul, Brasil, Turquia e Peru como preferíveis para investimentos, comparados com os PIIGS que foram rebaixados . Uma das consequências é o novo equilíbrio econômico mundial, no qual os países ricos dependem mais dos antigos pobres por causa de sua contribuição crescente à demanda global e o retorno mais elevado e seguro sobre os investimentos.

Assim, parece válida a hipótese sobre a importância dos países “emergentes” no século XXI, como o foram os Estados Unidos no século XX e a Grã Bretanha no XIX. A questão é saber se essa emergência ficará restrita aos BRICs ou alcançará também os países africanos?

Em retrospectiva dos últimos dez anos, o PIB africano cresceu quase 5% ao ano, o dobro das taxas de 1980 e de 1990 e mais do que a taxa da economia global de 3,8%. Os investimentos estrangeiros aumentaram de US$ 10 bilhões para US$ 88 bilhões. Pode haver dúvidas sobre a sustentabilidade deste processo, devido aos sistemas políticos dominados por rivalidades tribais, pela violência e pela corrupção. Entretanto, a taxa de inflação foi reduzida para 8% ao ano, desde 2000. Uma pesquisa recente do ODI – Overseas Development Institute, com sede na Grã Bretanha, levantou dados sobre a melhoria nas condições de vida nos países africanos, mostrando que em onze países foram reduzidas as taxas de mortalidade infantil e de pobreza extrema em 2% ao ano, o que os aproxima da meta do Programa dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas, que se compromete reduzir a proporção de pessoas pobres vivendo com menos de um U$ dólar por dia, até 2015. Além da redução da pobreza e da fome, da mortalidade infantil e a melhoria da saúde de mulheres e da educação básica de qualidade para todos, esses avanços aproximam esses países dos objetivos do programa de desenvolvimento das Nações Unidas.

Países como Ruanda e Maurício são destaques na classificação internacional para oportunidades de investimentos. A dependência da África de recursos naturais tornou-se vantagem tendo em vista a demanda crescente e o aumento dos preços das “commodities”, particularmente de petróleo e de produtos de mineração. A produção do setor de recursos naturais responde por 1/3 do crescimento do continente e empresas globais estão se estabelecendo em países africanos. Calcula-se que aproximadamente 200 milhões de pessoas entrarão no mercado de bens de consumo nos próximos cinco anos e a população em idade de trabalhar crescerá ainda mais. Melhor ainda, o número de pequenas empresas e de inovações tecnológicas incrementais, que necessitam menos capitais e mais mão-de-obra qualificada, está aumentando continuamente.

Parece que pelo menos alguns “leões” estão preparados para disputar mercados com os “dragões e tigres” do Oriente. Estudiosos e tecnocratas de órgãos internacionais estimam que, no caso do padrão atual se sustentar, a economia mundial será transformada permanentemente.

Em termos gerais, as economias emergentes estão bem colocadas para navegar com sucesso por um mundo tornado instável pelos riscos e transtornos nos países industrializados, antigamente ricos. Mas, a distribuição da renda é tão importante quanto o crescimento, exigindo uma administração racional e instituições públicas estáveis para evitar tensões internas decorrentes de disparidades regionais, setoriais e sociais.

O sucesso do processo depende também de uma melhor governança mundial e de reformas estruturais, postergadas há muito tempo, para dar às economias emergentes mais representação e voz adequada nas instituições internacionais.
Afinal, será que estaríamos caminhando, embora a passos de tartaruga, em direção a “um mundo só”?

São Paulo, julho de 2010.

12 de Julho, 2010
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