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Os BRICs – quatro países “emergentes”

A sigla foi inventada por um economista da Goldman Sachs, em 2005, e desde então não saiu do noticiário econômico e financeiro do mundo, por causa de seu peso econômico e, ultimamente, também político das quatro maiores economias fora da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o clube de supostos trinta países mais ricos. Brasil, Índia, China e Rússia são os únicos países em desenvolvimento cujo PIB – produto interno bruto –ultrapassa um trilhão de US dólares. Com a exceção da Rússia, os três países atravessaram a recessão e crise geral sem maiores dificuldades, enquanto vários países da OCDE padecem de seus efeitos até hoje. Um exemplo é a insolvência da Grécia, e ameaças de um destino semelhante pesam sobre Portugal, Espanha, Irlanda e Itália. Durante a crise, a China se tornou, além de segunda maior economia do mundo, ultrapassando o Japão, também o maior exportador, enquanto os BRICs aumentaram substancialmente seu comércio bilateral. O comércio entre China e Índia alcançou 60 bilhões de US dólares em 2009. A China também se tornou o maior mercado para os produtos industrializados da Ásia oriental. Fato menos auspicioso, a China também se tornou o país que mais produz dióxido de carbono, com emissões de 6,5 bilhões de toneladas em 2008, 20% do total mundial. A Rússia aparece logo após os EUA e a Índia, no quarto lugar nesta lista negra.

O indicador mais impressionante do significado dos BRICs para a economia mundial é, provavelmente, seu montante de reservas em divisas estrangeiras. Os quatro países estão entre os dez maiores detentores de divisas, somando 40% do total mundial. A China, com 2,4 trilhões de dólares, lidera seguida da Rússia, com 420 bilhões de dólares. A China é também o maior credor do mundo, depois do Japão. Com um sexto de suas reservas, os BRICs poderiam formar um fundo que teria um volume de recursos equivalente ao do FMI – Fundo Monetário Internacional. Divisas estrangeiras proporcionam uma almofada de proteção nas fases de recessão e tornam os BRICs potências econômicas e financeiras. Os quatro países ocupam 27% da superfície do globo terrestre e sua população corresponde a 40% do total mundial.

Enquanto os países ocidentais lutam para controlar suas dívidas e os déficits em suas contas correntes, as dívidas públicas dos BRICs são modestas e estáveis. A maioria dos bancos de investimentos oferece fundos dos BRICs e os dois maiores bancos do mundo são chineses. Este êxito financeiro se traduz em várias e diferentes influências, sendo a mais importante algo intangível, a reputação.

Os BRICs têm os maiores mercados do mundo, sendo grande proporção de sua população carente, o que leva a que os programas de combate à pobreza ocupem um lugar preferencial em suas listas de prioridades. Eles procuram diversificar suas economias e estão inovando, desafiando as noções convencionais sobre a globalização. Eles têm se envolvido na economia internacional sem abrir seus mercados à liberalização preconizada pelo “Consenso de Washington”. Outros países emergentes – Turquia, Irã, Egito, Tailândia - querem aprender com os BRICS os segredos do sucesso.

Economistas dos países ricos argumentam que é impossível retornar ao “status quo ante”, depois da grande crise financeira. O desafio seria elaborar instrumentos para que as grandes economias emergentes possam ser integradas ao sistema financeiro e comercial e assumir alguma responsabilidade por sua manutenção. Uma resolução do FMI, em fins de abril de 2010, cede mais 5% dos votos aos BRICs e promete abrir o seu capital até 2015.

Os EUA atribuem importância aos BRICs e gostariam de incorporá-los no processo decisório, mediante o G–20. Eles pressionam para expandir o grupo dos G-7, para incluir os BRICs, e declaram o “clube” como o principal instrumento para tratar dos assuntos econômicos internacionais. Assim, os BRICs e os sete países ricos, originalmente membros do G-7, formam um bloco natural dentro dos G-20. A expressão mais coerente da agenda dos G-20 é a reforma do sistema financeiro internacional e a ampliação dos programas de estímulo ao crescimento econômico interno.

Outro argumento para destacar a importância dos BRICs é que os quatro gigantes têm razões para formar seu próprio “clube”. Cada um dos quatro países procura camuflar seus interesses e abrigar-se atrás de uma fachada multilateral. Uma reunião de seus representantes parece algo mais do que um encontro entre parceiros iguais, pelo envolvimento da China, cuja economia supera as dos três outros países em conjunto. Mas, o fórum dos BRICs constitui uma alternativa ao G-2, um mundo polarizado entre China e EUA, procurando reforçar a multipolaridade do mundo.

A Índia ficou profundamente decepcionada com a diplomacia multilateral convencional. Anos de esforço para conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas não deram nenhum resultado. Também os esforços do Brasil de estender sua influência diplomática além do Mercosul e da América Latina não frutificaram. Os BRICs parecem ajudar aos dois países em suas ambições geopolíticas.

Para a Rússia, a associação com as economias mais dinâmicas do mundo pode servir para desviar as atenções de seu declínio geopolítico e demográfico. Os BRICs são importantes para a Rússia, que deseja assinalar aos EUA que países em desenvolvimento mais acelerado devem poder seguir suas próprias opções, e que nem todas as rotas levam a Washington.

Membros do Congresso norte-americano têm manifestado suas preocupações com os BRICs que, segundo eles, poderiam danificar o sistema econômico global. Outros apontam que durante a grande crise, quando a produção caiu em quase todos os países, a dos BRICs, com exceção da Rússia, apresentou avanços significativos, contribuindo assim para a normalização das atividades econômicas do sistema mundial. Mas uma das dúvidas mais freqüentes é sobre as chances dos BRICs em mudar algo fundamental e sua capacidade de mudança, por falta de coerência. Eles competem entre si da mesma forma como o fazem com a Europa e os EUA, o que enfraquece suas ambições individuais. Outro obstáculo à coerência é a rivalidade estratégica, apesar da cooperação bilateral entre os países: recentemente, ocorreram manobras militares conjuntas entre Rússia e China, Rússia e Índia e China e Índia. Rússia e China participam de um grupo de segurança mútua – a Organização de Cooperação de Shanghai, que inclui que inclui países da Ásia Central (Kazakistão, Quyrgyzistão, Tajiquistão e Uzbequistão). O maior problema, contudo, é a rivalidade histórica entre China e Índia, que travaram uma guerra em 1962. Há também disputas territoriais e políticas: a China tentou bloquear um empréstimo do Banco Asiático de Desenvolvimento para projetos nos territórios disputados. Estrategistas indianos receiam uma política de “cerceamento” pela China, que apóia o Paquistão, o Nepal, governado há pouco tempo por um partido Maoísta, e o Sri Lanka, beneficiado por generosos financiamentos chineses para sua reconstrução após 20 anos de combate às guerrilhas da minoria Tâmil.

Dois dos BRICs são governados por regimes autoritários e dois são democracias, embora com profundas desigualdades sociais, regionais e setoriais. Três são potências nucleares e, no Brasil, que abandonou seu programa em 1980, há vozes influentes que exigem a construção de um poderio nuclear, inclusive um submarino propulsionado a energia nuclear, para proteger seus campos de petróleo em alto mar. China e Rússia têm assento permanente, com direito a veto, no Conselho de Segurança das Nações Unidas enquanto os outros dois, Índia e Brasil, continuam frustrados em suas tentativas para conquistar um lugar ao sol.

Prognósticos da dinâmica demográfica são bastante desfavoráveis para a Rússia, cuja taxa de fertilidade é extremamente baixa – 1,3% ao ano, contra 1,8% a 2% dos outros três países. Isto significa que sua população em idade produtiva aumentará até 2030, enquanto a da Rússia diminuirá em 17 milhões.

Outras dúvidas preocupam observadores e analistas: quem deveria pertencer ao “clube”, África do Sul, Indonésia, México? Se forem admitidos, quais seriam as conseqüências?

A competição entre os países do BRICs se estende também a outros países. Na falta de investimentos e doações dos países ricos, a China prometeu crédito barato de 10 bilhões de dólares aos países africanos e o Brasil tem investido também 10 bilhões de dólares nesse continente desde 2003, e ambos aumentaram suas compras de produtos de exportação dos países pobres, sobretudo petróleo e minérios.

Na questão da mudança climática, as posições dos BRICs convergem em alguns pontos e divergem em outros, mas os quatro querem separar as questões ambientais das do comércio e se opõem ao estabelecimento de tarifas sobre as emissões de carbono. Na questão de mudança climática, os BRICs se transformam em BASICs, incluindo a África do Sul e excluindo a Rússia, considerada país desenvolvido pelo Protocolo de Kyoto. Também, na questão das florestas existem diferenças significativas. O Brasil é o país de maior desmatamento, planejando agora uma redução substancial, enquanto a China é o país de maior reflorestamento, prometendo o plantio de quatro milhões de árvores por ano.

Finalmente, os BRICs apresentam características e políticas econômicas diferentes: A variação é maior na renda per capita – a Rússia, com US$ 15.000 por ano; a Índia com US$ 3.000. e China e Brasil oscilam entre US$ 8.000 a 10.000 por ano, de acordo com os dados do FMI e medindo pela paridade de poder de compra. China e Rússia são economias mais abertas, exportando aproximadamente 30% de seu PIB, enquanto Índia e Brasil não passam de 20%. Na política econômica, a China reprime a demanda interna e encoraja as indústrias de exportação; Índia e Brasil, ao estimular o consumo interno, questionam o mercantilismo chinês, agravado pela sub-valorização do Yuan, moeda da China. As diferencias são notórias, comparando-se as taxas de investimento bruto. A taxa média dos países asiáticos é de 32% do PIB, mais do que o dobro da taxa da América Latina, e a do Brasil não passa de 18% ao ano, contra 50%, em 2009, da China. Puxada pelo consumo, a economia brasileira consome mais do que produz e poupa, o que agrava sua dependência do investimento estrangeiro, extremamente volátil nestes tempos de crise.

Essas diferenças entre as políticas dos BRICs não chegam a paralisar as atividades do “clube”. Seus membros se reúnem para propor a reformulação do FMI. Mas não há cooperação militar e pouco se fala sobre o comércio. o que, paradoxalmente, torna as coisas mais fáceis para os países que não precisam fazer sacrifícios para contentar os parceiros. Podem criticar a gestão da economia mundial sem, necessariamente, fazer algo a respeito, como, por exemplo, criticar o fracasso da Rodada de Doha da OMC – Organização Mundial de Comércio. Essa posição cômoda pode mudar a partir do momento em que ser membro do “clube” exija uma contrapartida.

Entretanto, os BRICs enfrentam rivais. Os países do leste asiático se reúnem para formar no futuro um grupo coerente e recentemente, a China e a ASEAN – Associação de Nações do Sudeste Asiático – concluíram um acordo de livre comércio. Em março p.p., o Japão, a China e a Coréia do Sul formaram um grupo de reservas cambiais, conquistando assim uma parcela da coordenação monetária internacional, deixando o Brasil, a Rússia e a Índia fora do acordo.

Os BRICs conquistaram prestígio em conseqüência da crise de 2008 – 2009 e devem ser ouvidos nos debates sobre a estabilização da economia mundial. Mas não podem reivindicar coerência legal, histórica e geográfica, à semelhança da União Européia. Associações informais de países – o G-10, G-5, G-6, G-7 e agora o G-8 têm sido recorrentes nas últimas décadas. Entretanto, os debates na Conferência sobre Mudança Climática em Copenhague, em dezembro de 2009, mostraram que novas combinações de grandes países emergentes podem desempenhar um papel importante no mundo, pressionando os países ricos a mudar de forma mais significativa seu papel na gestão da economia mundial.

Apesar da crise, a economia global está se expandindo, graças ao dinamismo dos países emergentes. Empresas multinacionais gigantes surgem na Índia, China e Brasil, competindo com as maiores e mais tradicionais empresas, seja na indústria automotiva, na informática e no petróleo. Infosys treina 10.000 engenheiros de informática por ano, atraindo os melhores cérebros da Índia. China e Índia treinam enormes contingentes de “trabalhadores de cérebro”, mais de duas vezes o que se gradua nos Estados Unidos, o que está induzindo as companhias multinacionais a mudar suas atividades de P&D (pesquisa e desenvolvimento) para os países emergentes, sobretudo os BRICs. E esse entusiasmo pela educação e treinamento não se limita apenas a empresas de “High Tech” - alta tecnologia, mas se estende também aos outros setores e cidades, além de Shanghai e Bangalore.

10 de Junho, 2010
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