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Desenvolvimento – a luz vem do oriente?

Após o abalo e a maior recessão econômica sofrida nas últimas décadas, a economia mundial está tateando para reencontrar seu equilíbrio e iniciar o caminho de recuperação. Todavia, como evidenciam os dados estatísticos de alguns países europeus – os PIGS – Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha – sem falar dos países, bálticos, a crise financeira continua a pleno vapor e seus impactos são sentidos em todas as atividades econômicas, na indústria, no comércio e na agricultura, com níveis de desemprego altíssimos.

Nos países antes considerados “ricos”, o progresso relativo no combate à pobreza e ao subdesenvolvimento conseguido nas últimas décadas do século vinte, foi apagado pelo aumento das taxas de desemprego que superam os 10% da força de trabalho e dos preços de alimentos. Filas de pessoas em busca de um prato de comida passaram a fazer parte da rotina, mesmo nos Estados Unidos.

O fracasso das políticas tradicionais de desenvolvimento por meio de macro investimentos em infra-estrutura mostra as hesitações do capital privado diante a incerteza e os riscos dos mercados, enquanto os recursos do poder público se mostram insuficientes para reanimar os investimentos e as atividades produtivas.

Neste contexto, um caminho alternativo, sobretudo para os mais carentes e excluídos, surge de uma experiência positiva de “desenvolvimento”, num dos países mais pobres do mundo, o Bangladesh.

BRAC – Bangladesh Rehabilitation Assistance Committee, fundado em 1972 por Fazle Hasan Abed, um homem de negócios de Bangladesh, é incomparavelmente a maior e a mais rapidamente se expandindo organização não governamental do mundo. Embora Muhammad Yunus, outro bangladeshi, foi ganhador do prêmio Nobel da Paz, em 2006, por sua ajuda aos pobres, seu Banco Grameen não foi a primeira e nem a maior instituição de micro financiamento no Bangladesh. BRAC é a maior – suas operações de micro financiamento envolvem um bilhão de US$ por ano. Além disso, ela mantém um serviço de internet, uma universidade e, em suas escolas primárias estudam 11% das crianças de Bangladesh. Suas atividades econômicas incluem a administração de uma fábrica de ração animal, avicultura, plantações de chá e empresas de embalagens. BRAC demonstra que ONGs não precisam ser pequenas e mesmo instituições pequenas de países pobres podem superar instituições filantrópicas ocidentais, operando com grande volume de recursos. Diferentes autores consideram BRAC o maior e o mais diversificado experimento social do mundo em desenvolvimento. A difusão de seu trabalho supera em seus impactos sobre o desenvolvimento outros empreendimentos, governamentais, privados e de ONGs, sem fins lucrativos. Empregando com suas operações mais de 100.000 pessoas, predominantemente mulheres, BRAC assiste com suas atividades a 110 milhões de pessoas, beneficiadas por uma vasta gama de programas de desenvolvimento econômico e social, nas áreas de saúde, educação, direitos humanos e serviços legais.

Tudo começou depois de um tufão ter levado inúmeros refugiados ao escritório de Fazle Abed, levando o a criar a Comissão de Rehabilitação Assistencial, combinando dois fatores dificilmente conciliáveis: administrar uma ONG como se fosse uma empresa e levando a sério o contexto da pobreza.

BRAC aufere 80% de seus recursos de suas operações e o resto é proveniente de doadores, principalmente ocidentais. Atividades que exigem subsídios constantes são abandonadas. Desde o começo, Fazle Abed insiste em honestidade absoluta na divulgação dos resultados. BRAC presta bem mais atenção à pesquisa e “aprendizagem contínua” do que a maioria das ONGs. O que torna BRAC única e especial em seu gênero é sua combinação de fazer negócios e sua visão da pobreza. Esta é geralmente considerada como um problema econômico que pode ser aliviado pelo envio de dinheiro. Influenciado por três pensadores do movimento de “libertação”, muito acatados nos anos sessenta do século passado, Frantz Fanon, Paulo Freire e Ivan Illich, o fundador de BRAC admite que a pobreza nos vilarejos de Bangladesh seja o resultado de uma rígida estratificação social. Nessas circunstâncias, “desenvolvimento comunitário” irá ajudar mais os ricos do que os pobres e por isso, para eliminar a pobreza, deve se mudar a sociedade. Esta visão levou o fundador do BRAC para o caminho do desenvolvimento. Mulheres se tornaram o foco da instituição por que elas estão na base da sociedade e as mais necessitadas de ajuda. 70% das crianças nas escolas do BRAC são meninas. Operações de micro financiamento ajudam os pobres a poupar, mas, diferentemente do Grameen Bank. BRAC empresta bastante a pequenas empresas. Pequenos empréstimos podem melhorar significativamente a situação de um indivíduo ou de uma família mas, freqüentemente são investidos em empreendimentos rurais tradicionais, tais como a aquisição de uma vaca leiteira ou de ovelhas.

A ideologia do BRAC com referência à mudança social exige não o crescimento (no sentido de mais do mesmo), mas o desenvolvimento de atividades novas e diferentes, criando empregos e novas formas de empreendimentos produtivos.
Após trinta anos de atuação no Bangladesh, BRAC difundiu e aperfeiçoou suas atividades e está expandindo seu raio de ação para outros países em desenvolvimento. Alcançou a posição de maior ONG no Afeganistão, Tanzânia, Uganda e entra no Sri Lanka, Sul do Sudão, Libéria, Serra Leone e Paquistão, superando de longe as organizações de caridade ocidentais, britânicas e americanas que atuam nesses países há várias décadas. Segundo David Corten, autor de “Quando as corporações governam o mundo”, “BRAC está mais próxima de uma organização de aprendizagem que possa existir”.
Vindo de um país pobre e islâmico significa que enfrenta menos resistência do que as organizações ocidentais. Seus custos de operação são significativamente mais baixos e seus funcionários não circulam em peruas com motores potentes.

Sua expansão além mar pode representar novos problemas para BRAC. As ONGs estabelecem freqüentemente uma ligação no vazio criado entre os governos, distantes e corruptos, e os milhares de vilarejos, dispersos na área rural. BRAC conseguiu isto no Bangladesh, sendo uma organização nativa. Será que conseguirá o mesmo resultado em outros países?

São Paulo, março de 2010

15 de Abril, 2010
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