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A Volta do Terror
A Volta do Terror*
Henrique Rattner
FEA/USP
No nono ano após o conflito no Afeganistão, o comando das forças armadas da NATO – Organização do Tratado de Atlântico do Norte – anuncia a maior operação militar, com 7500 soldados, contra a cidade de Marjah, no sul do país e o principal reduto dos insurgentes na região controlada pelo Talibã. A operação, anunciada antes para alertar a população civil, é a maior desde a invasão do país em 2001 e deve representar o teste da nova estratégia anunciada pelo presidente Barack Obama, em dezembro de 2009.
A cada dia, avolumam se evidências que as guerras contra o “terror” – al Qaeda, Talibã, Shabaah e outras jihadistas não pode ser travada, muito menos vencida, com as armas e táticas convencionais, por mais complexas e sofisticadas fossem. O texto chama a atenção sobre a necessidade de se repensar estratégia e tática neste conflito mortal cuja perpetuação ameaça os fundamentos e os valores de nossa civilização.
Somente poucos meses atrás, especialistas em inteligência afirmaram que al Qaeda e seus líderes estariam em declínio, militar e ideologicamente. A explosão de duas bombas, num intervalo de poucos dias, uma falhando e a outra sucedida, conseguiram abafar esse otimismo. Os rumores sobre a queda de al Qaeda não vieram gratuitamente. Na opinião de muitos analistas, a liderança central da rede foi dizimada pelos ataques de aviões não tripulados, na região da área tribal paquistanesa; seu braço saudita foi destroçado; seus companheiros no Iraque foram marginalizados e aqueles que sobraram em outras regiões, conseguiram realizar ataques locais apenas. Al Qaeda fracassou em executar um golpe no ocidente, desde as bombas em Londres, em 2005. Os financiamentos diminuíram e as massas islâmicas procuram escapar do terror global.
“Embora ainda perigoso, al Qaeda está sob mais pressão e sua organização mais vulnerável enfrenta mais desafios do que em qualquer momento desde o ataque de 11 de setembro de 2001”, declarou Mike Leiter, diretor do Centro Nacional Americano de Contra-terrorismo, em setembro de 2009.
Esse tipo de avaliação está sendo rapidamente revisado. Mike Leiter, o agente secreto preferido de Barack Obama, foi obrigado a explicar por que sua nova organização, supostamente habilitada a concentrar todas as informações sobre potenciais ameaças terroristas, falhou na identificação de vários índices de ameaças do terrorista Umar Farouk Abdulmatallah. O estudante nigeriano que migrou do Yemen para Londres no ano passado, tentou fazer estourar explosivos costurados em suas cuecas durante um vôo da Northeast Airlines, quando se preparou para aterrissar em Detroit, no dia de Natal. Cinco dias depois, o serviço de inteligência norte americano sofreu um golpe mais grave, quando Humam Khalil Abu Mulal al Balawi, um médico jordaniano de origem palestina que tinha sido enviado para infiltrar se na liderança superior de al Qaeda, explodiu se numa base da CIA no Afeganistão. Ele matou sete americanos e um oficial de inteligência jordaniano, num dos maiores ataques sofridos pela CIA.
As agências de espionagem norte americanas estão passando pelo maior crivo e reexame desde os ataques de 11 de setembro de 2001. O presidente Obama ordenou que pessoas de 14 países que pretendam voar para os EUA sejam submetidas a medidas de segurança mais rigorosas; raio–x de todo o corpo está sendo introduzido e a soltura de yemenitas da prisão de Guantánamo foi suspensa. A Grã Bretanha que abrigou várias conferências sobre o Yemen e o Afeganistão, em 27 e 28 de janeiro, elevou o nível de ameaça para “severo”, após tê - lo reduzido a “substancial” em julho de 2009. Foi criada também uma lista de “não vôo” e os vôos de aviões nacionais yemenitas para Londres foram suspensos.
Osama Bin Laden, a dar crédito a uma mensagem gravada e transmitida pela rede AL Jazeera, reapareceu para louvar o “herói” Abdullmutallab.. Falando de “Osama para Obama”, a voz declarou: “Com a vontade de deus, nossos ataques contra vocês continuarão, enquanto vocês darão apoio a Israel”.
Entretanto, algumas das preocupações sobre aL Qaeda ressurgiram. Durante uma viagem ao sul da Ásia, o secretário da defesa norte americano, Robert Gates, afirmou que al Qaeda lidera um sindicato de “operadores terroristas”, procurando desestabilizar a região e mesmo provocar um conflito entre a Índia e o Paquistão.
Um relatório elaborado por um ex–oficial da CIA, escrito para o Belfer Center da Universidade de Harvard, argumenta que al Qaeda ainda procura atacar os EUA com armas de destruição em massa e, se ela perder a chance de usar uma “bomba suja” grosseira ou de qualquer toxina, isto seria apenas na esperança de obter um agente biológico efetivo. No dia seguinte, uma comissão nomeada pelo Congresso afirmou que os EUA estariam totalmente despreparados para um ataque de bio-terror e advertiu que “em poucos anos, a probabilidade de um ataque usando armas de destruição em massa biológicas, mudará profundamente a vida das democracias no mundo”.
O que é al Qaeda?
Até que ponto cresceu a ameaça de al Qaeda realmente? O problema para encontrar uma resposta é o seu caráter nebuloso: ela é uma organização secreta; uma rede de grupos de militantes e uma revolta social difusa e dispersa. Ela inclui os grupos de lideres ao redor de Osama Bin Laden e Ayman al Zawahiri, considerados abrigados na fronteira selvagem depois de sua expulsão do Afeganistão. O “núcleo de al Qaeda” tenta ainda organizar ataques contra o ocidente. Mas, seu desafio maior é proporcionar inspiração pela internet.
Um número de “franquias” usa o nome de al Qaeda, sobretudo no Yemen, no Iraque e no Magreb embora operam com bastante autonomia. Al Qaeda tem também uma rede que inclui paquistaneses, afegãos, extremistas do Cashmir, do movimento Shabaab da Somália, rebeldes da Chechena, militantes indonésios e outros. Um movimento social mais amplo pode incluir grupos de jovens islamitas radicais, vivendo no ocidente. Um caldo de recrutamento fácil encontra se entre os conversos ao islã nas prisões. Um agrupamento tão amorfo e disperso é difícil de ser derrotado. Ataques podem surgir de qualquer parte. Os combatentes de al Qaeda podem ser mortos , mas suas idéias continuam vivas. Denúncias por antigas jihadistas podem causar danos, mas o movimento recruta de um poço infindável de ódio ao ocidente. Se o jihad (a guerra santa) fracassa em uma região, como foi o caso no Iraque, os militantes migram para outras áreas como, por exemplo, o Yemen ou a Somália. O sucesso de um grupo enaltece os feitos dos outros. O otimismo sobre o enfraquecimento do movimento, nesses últimos tempos, foi certamente exagerado, mas o medo espalhado neste ano, também o é. Grandes conspirações necessitam tempo e espaço para sua preparação, sendo que as mais ambiciosas exigem enormes quantidades de dinheiro e uma base estável para pesquisar e testar as técnicas e as armas a serem aplicadas. Por isso, é importante dominar áreas de refúgio em terras não governadas. Os santuários de al Qaeda, sejam eles na fronteira tribal do Paquistão, ou em rincões distantes do Yemen, na Somália ou no deserto do Saara, constituem motivos de preocupação. Mas, nenhum deles iguala se ao refúgio que al Qaeda possuía, tempos atrás, no Afeganistão.
Segundo relatório do M15, o serviço secreto britânico, três quartas das tramas urdidas têm sua origem no Paquistão. Provas disto podem ser derivadas do “martírio” de al-Balawli. Ele foi filmado próximo do líder talibã paquistanês, Hakmullah Mehsud, afirmando que queria vingar a morte, por um ataque de aviões não tripulados, do líder talibã, Baitullah Mehsud. A fita foi provavelmente rodada no Waziristão do norte, onde se suspeita que Mehsud estaria escondido, após sendo expulso de sua terra, mais ao sul. Tudo isto indica uma reorganização de al Qaeda com os talibãs paquistaneses e outros militantes, mais concentrados no Afeganistão, com base no Waziristão do norte. “A liderança de al Qaeda está diminuindo. Mas, a rede geral está se consolidando e pode compensar pelo que al Qaeda não mais consegue realizar”, afirma uma fonte de inteligência ocidental. Outra parte da rede reforçada é a facão de al Qaeda baseada no Yemen que formalmente se uniu aos remanescentes do movimento da Arábia Saudita. Seu reaparecimento apóia se em dois fatores: primeiro, o enfraquecimento do frágil estado yemenita devido a diminuição de reservas de petróleo e de água e o segundo, uma rebelião xiita no norte e um movimento separatista, no sul do país. Acrescenta se a entrada de militantes de al Qaeda experientes, fugitivos da prisão em 2006 e de ex–internados na baía de Guantánamo. Assim, a advertência de Mike Leiter, em setembro do ano passado, segundo a qual o Yemen poderia tornar se uma base regional de operações, concretizou se.
Um relatório do Senado norte americano afirma que dezenas de jovens americanos, muitos deles convertidos ao Islã radical enquanto estavam na prisão, foram para o Yemen, “muitos de cabelos loiros e de olhos azuis”. O relatório menciona também o caso de Nidal Hasan, o psiquiatra militar que matou 13 soldados numa base no Texas, para confirmar que al Qaeda estaria usando militantes com fácil acesso ao ocidente.
Outra fonte de preocupação está situada no outro lado do golfo de Aden, na Somália onde militantes de al Qaeda ajudam reforçar a campanha da milícia islâmica Shabaah que na maior parte do país. As relações com al Qaeda são ambíguas e o grupo parece sobretudo preocupado com a criação de um grande califado na Somália. Entretanto, muitos daqueles que conspiraram nos ataques de 1998 às embaixadas americanas na África do leste, operaram a parir da Somália. Contudo, a formação de um braço de al Qaeda no Magreb, baseado nos veteranos da guerra civil de Argélia, não confirmou os piores receios dos europeus. Bombardearam o quartel das Nações Unidas em Argélia, seqüestraram ocidentais no deserto para exigir o pagamento de resgate e esboçaram lutas de guerrilhas com as autoridades da Mauritânia. Pelo menos, por enquanto não parecem conseguir recrutar estrangeiros ou realizar tentativas de atravessar o Mediterrâneo. Os militantes do Magreb parecem contidos no coração do Saara. Preocupa, contudo, a expansão do vírus do jihadismo em direção ao sul para o resto da África, especialmente o norte da Nigéria, onde um grupo chamado “Talibã Negro” tem lutado contra as forças nigerianas.
Al Qaeda vangloria se que sua jihad teria causado a crise financeira dos EUA, apontando os custos dos conflitos no Iraque e no Afeganistão. Estabilizando esses países seria vital para não entregar a vitória aos jihadistas, mas os EUA e os países ocidentais devem estar acautelados para evitar uma resposta militar a cada ameaça de al Qaeda. Intervenções militares podem neutralizar células terroristas, mas também incubam ressentimentos e desejos de vingança. “Nossa estratégia tem sido concentrada exclusivamente na captura e na execução de terroristas” afirma um pesquisador da Universidade George Washington. “Não podemos continuar a combater nesta guerra como fizemos até agora. Estaremos exaustos em recursos humanos e financeiros”. Seria melhor, segundo o mesmo pesquisador, ajudar os governos locais a deter al Qaeda de fincar raízes e de evitar a radicalização. Essas idéias apontam para uma assistência ao contra terrorismo e maior ênfase à dinâmica política dos países árabes e islâmicos.
Mas, ajuda e diplomacias não irão resolver tudo. Os lideres locais podem ser fracos demais, desacatados ou desinclinados para compartilhar dos objetivos do ocidente. No Afeganistão, o presidente Hamid Karzai pouco tem feito para evitar a corrupção. Para muitos paquistaneses, a Índia constitui uma ameaça maior do que os militantes jihadistas. Por anos a fio, o Paquistão tem utilizado os jihadistas como instrumento de sua política exterior. Também, no Yemen a prioridade é esmagar a rebelião dos shiitas e, em seguida, evitar a secessão no sul. O presidente Ali Abdullah Saleh recebe ajuda de veteranos da guerra “santa” contra os soviéticos, na guerra civil dos anos de 1990.
As conferências de Londres sobre o Yemen e o Afeganistão debateram esses dilemas. No caso do Yemen, foi proposta a liberação de uma ajuda de 5 bilhões , em contrapartida de uma reforma política e a repressão da corrupção. O objetivo, segundo os britânicos, seria “evitar que o Yemen se torne um estado fracassado. A tarefa no Afeganistão é reconstruir o estado, já fracassado, no meio de uma insurreição alarmante. A reunião sobre o Afeganistão promete anunciar a expansão das forças de segurança; um plano para que elas assumam o controle hoje exercido pelas tropas ocidentais; medidas para apaziguar os guerreiros talibãs e acenar com negociações futuras com seus lideres.
Especialistas em contra terrorismo oficiais estão elaborando o que os britânicos chamam o programa dos quatro P, para controlar o terrorismo:
· prevenir a radicalização dos islâmicos;
· perseguir os terroristas e desmantelar seus planos
· proteger alvos, tornando os ataques mais difíceis
· preparar agências governamentais para minimizar cada ataque
Sugere se um quinto P:
· perseverar neste caminho...
São Paulo, março de 2010
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