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Em busca dos amigos perdidos

Henrique Rattner
FEA/USP

Como manter os laços de amizade com os poucos amigos que sobraram num continente invadido pela política ambiciosa e agressiva do Irã? As ambições proclamadas pelo Irã na África constituem motivos de preocupação para Israel que, no passado, teve muitos amigos no continente e, agora, procura manter os poucos que lhe sobraram.
Ao chegar ao aeroporto de Dakar, capital do Senegal, a chance de encontrar um taxi para levá-lo à cidade, que não seja mais um dos costumeiros veículos franceses ou japoneses, mas um novo modelo iraniano é grande. E o veículo não foi importado, como acontece com a maioria dos carros na África, mas foi montado numa linha de produção de uma fábrica – Khodro – construída por iranianos. Estes são símbolos de um novo poder na áfrica subsaariana que causam arrepios e preocupação em diversos lugares.
Mahmoud Ahmedinajad, o controvertido presidente do Irã, está na frente dos empreendimentos iranianos. Dois anos atrás, em Nova Iorque, ele afirmou que “não haverá limites para a expansão das relações iranianas com os países africanos”. No ano passado (2009), diplomatas iranianos, o presidente e generais atravessaram o continente, assinando uma série confusa de acordos comerciais, diplomáticos e de defesa. No ano passado, em uma única missão, o Irã levou vinte ministros visitantes à África, lembrando o turbilhão de comércio e oferta de ajuda, causado pelos chineses, nos anos de 2000. As razões não são difíceis de ser compreendidas. O Irã quer apoio diplomático para seu programa nuclear, num mundo onde governos ainda podem ser subornados ou corrompidos.
Na América Latina, o presidente iraniano já explorou os sentimentos antiamericanos em países como Bolívia, Nicarágua e Venezuela. Na África, ao contrário, onde a maioria dos países mantém relações sólidas com o ocidente, o Irã concentra seus esforços nos apelos à solidariedade islâmica, apoiados por petróleo e dinheiro. Veja-se, por exemplo, o caso do Senegal, um país com 95% da população islâmica. Embora pobre e pequeno em termos territoriais e demográficos, o país tem peso diplomático na África francófona e influência nas Nações Unidas, onde vários governos esperam sua liderança em votações importantes. Por isso, o Irã tem bombardeado o país com sinais de boa vontade. Além da fábrica de veículos Khodro, os iranianos têm prometido construir tratores, uma refinaria de petróleo e uma fábrica de produtos químicos, bem como suprir uma quantidade respeitável de petróleo a baixo custo. O presidente senegalês, Abdoulaye Wade, recebeu prazerosamente esta oferta generosa, retribuindo com quatro vistas oficiais ao Irã. Em novembro passado, ele hospedou Ahmedinajad no Senegal, declarando publicamente seu apoio ao direito do Irã de se tornar potência nuclear e aceitou que isto serviria apenas para fins pacíficos.
O presidente iraniano, feliz com seu sucesso, visitou também a vizinha Gâmbia, um regime autoritário horrível, mas com um voto na Assembléia Geral das Nações Unidas.
Também no lado ocidental, o Irã tem se aproximado da Mauritânia e fortaleceu seus contatos com a Nigéria. Na África oriental, o Irã ajudou o Sudão, outro país islâmico, a se tornar o terceiro maior produtor de armas, assinando em 2008, um acordo de cooperação militar.
O Irã tem também procurado alianças menos promissoras na região. No ano passado, Ahmedinajad visitou o país de população predominantemente cristã, o Quênia, onde foi recebido com jubilo no porto de Mombaça, na costa habitada por islamitas. Lá, ele assinou um acordo de exportar quatro milhões de toneladas de petróleo por ano, de abrir uma linha aérea direta entre Teerã e Nairóbi, as duas capitais, e ofereceu bolsas de estudos no Irã. Onde for que estabeleça uma embaixada, o Irã cria também um centro cultural. O Irã tentou também penetrar mediante seu petróleo, no Uganda. Numa visita recente, o presidente de Uganda, Yoweri Mouseveni, surpreendeu seus hospedes ao acenar com a possibilidade de construir uma refinaria e um oleoduto para o petróleo recentemente descoberto em Uganda.
O presidente de Zimbabwe, Roberto Mugabe, foi também sondado, junto com o gigante econômico e diplomático subsaariano, a África do Sul, cujo Congresso Nacional Africano tem compartilhado, de longa data, o apoio aos palestinos contra Israel. O Irã tem suprido muito petróleo à África do Sul, durante longos anos. Agora, as relações econômicas foram fortalecidas. Empresas privadas sul africanas têm investido pesadamente no Irã. A MTV, por exemplo, uma empresa de celulares, investiu 1,5 bilhões de dólares no Irã, entre 2005 e 2008, para dar cobertura a mais de 40% dos iranianos. A título de retribuição, a África do Sul foi um dos países que mais apoiaram o Irã, nas Nações Unidas, abstendo-se de votar a condenação por violação de direitos humanos e votando contra mais embargos e sanções em relação aos planos nucleares do Irã.
Contudo, a quantia de ajuda cedida ao continente africano pelo Irã é ainda muito pequena quando comparada com as somas concedidas por americanos e europeus e, sobretudo, da China. Duvida-se que países como o Senegal arriscariam as relações de ajuda com o ocidente, ao aproximar-se demais do Irã. E, às vezes, há mais conversas do que ações do lado iraniano. O vôo diretor de Nairóbi para Teerã ainda está para acontecer. Khodro está produzindo metade dos taxis prometidos. E, será difícil para os xiitas iranianos influenciar os muçulmanos africanos, predominantemente sunitas.
Poderá o estado de Israel recuperar pelo menos parte de seu terreno? Seja como for, Israel está agitado e preocupado. Suas relações diplomáticas escassearam e são mais frágeis do que foram e o Irã está empenhado a retalhar o que restou. No ano passado, a Mauritânia, um dos poucos países da Liga Árabe que manteve relações diplomáticas com Israel, avisou para fechar sua embaixada. Após uma visita ao país do ministro de relações exteriores iraniano, este declarou que o Irã iria assumir a construção de um hospital iniciada pelos israelenses, na capital Nouakchatt, acrescentando que iria suprir mais médicos e equipamentos do que Israel tinha prometido. No Senegal, os israelenses tinham oferecido à famosa cidade islâmica sufista, a construção de um sistema de água e de saneamento. Mas, as negociações foram interrompidas num estágio avançado, depois da promessa do Irã de contemplar a cidade com uma substancial doação em dinheiro, além de fornecer as bombas de água.
As comunidades da diáspora libanesa, ricas e influentes, também entram em cena. No Congo, Guiné e Senegal e outros países, o partido milícia sírio libanês Hezbolah, ajudado pelo Irã, coleta quantidades de dinheiro de seus correligionários, enquanto prega a “gospel” iraniano.
Para conter as atividades iranianas na África, Israel tenta reconquistar o território onde teve fortes laços de cooperação nos anos 1950 e 1960. Mas, muitos países cortaram suas relações depois das guerras árabes-israelenses em 1967 e 1973 e, novamente, quando iniciaram-se as intifadas palestinas, nos fins de 1980.
Em setembro de 2009, o ministro das relações exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, realizou uma missão de alto nível na África, a primeira em várias décadas, visitando a Etiópia, Ghana, Quênia, Uganda e a Nigéria. Tentar se opor à influência iraniana foi claramente o objetivo desta viagem. Muitos governos africanos ainda aspiram obter tecnologia e know-how israelenses ligados a projetos de irrigação, bem como acesso a sistemas de armas mais avançadas e de inteligência militar. A Etiópia, preocupada com a segurança ao enfrentar milícias islâmicas apoiadas pelos rebeldes somalis vizinhos, tem se tornado o aliado continental mais estreito de Israel e também, grande comprador de equipamentos de defesa. Quênia, também preocupada com os combatentes islâmicos na vizinha Somália, foi sempre muito receptivo aos equipamentos israelenses. Na África ocidental, a Nigéria gastou mais de 500 milhões de US dólares na aquisição de armas israelenses, inclusive aviões não tripulados, nos últimos anos.
Lieberman vai visitar a África, novamente este ano. Israel está particularmente preocupado com as estreitas relações do Irã com a Eritréia e o Sudão, pontos estratégicos no Mar Vermelho que podem constituir uma ameaça à navegação de barcos israelenses. Eritréia está também armando os jihadistas somalis, fanaticamente anti-israelenses. O Sudão já estaria servindo de rota para fornecer armas ao Hamas e à Hezbolah, ambos os movimentos apoiados pelo Irã. No ano passado, um avião israelense destruiu um comboio carregado de armas iranianas com destino à faixa de Gaza.
Apesar de várias resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas tentando fazer o Irã desistir de seu programa nuclear, Teerã prossegue imperturbável no enriquecimento de urânio, na construção de novas centrífugas e no desenvolvimento acelerado de sua indústria de armamentos, inclusive foguetes de longo alcance, tornando-se uma ameaça cada vez mais concreta, para os países vizinhos e para o resto da humanidade.

São Paulo, fevereiro de 2010

22 de Fevereiro, 2010
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