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Vazamento tóxico expõe política ambiental da China

O governo chinês defendeu-se ontem de acusações de ter reagido com ineficiência ao vazamento de benzeno que obrigou o corte de água na cidade de Harbin, de 9 milhões de habitantes e uma das maiores do país. "[O acidente] foi tratado adequadamente", disse em Pequim Zhang Lijun, diretor-assistente da Agência de Proteção Ambiental. O caso ilustra, porém, a grave situação na China após duas décadas de crescimento acelerado.

O governo só confirmou publicamente que o rio Songhua havia sido contaminado com produtos tóxicos anteontem, dez dias após a explosão em uma fábrica de produtos químicos que matou cinco pessoas. Apesar do severo controle que o governo central exerce sobre a mídia, diversos jornais do país criticaram a ação das autoridades após o grave desastre ambiental.

Zhang disse que os governantes e empresas locais foram avisados, assim que o vazamento foi detectado, e pararam de usar a água do rio. "As autoridades agiram no mesmo dia e nem sequer uma pessoa adoeceu", afirmou.

O derramamento de cerca de cem toneladas de benzeno e outros produtos químicos criou no rio uma mancha tóxica de 80 quilômetros de extensão, que ontem atingiu Harbin, distante 350 quilômetros da fábrica. O governo calcula que só amanhã, 40 horas depois, a mancha terá passado pela cidade. Os habitantes que moram na região metropolitana da capital da Província de Heilongjiang estão consumindo água distribuída por autoridades e empresas locais.

A mancha de benzeno, produto cancerígeno, deve prosseguir pelo rio e chegar à costa da Rússia. Não se sabe ainda quando a água do rio poderá voltar a ser utilizada.

"Uma cuidadosa avaliação ambiental deveria ter sido feita para evitar a construção de fábricas perigosas próximas a áreas residenciais e fontes de água. O governo local deveria ter previsto isso, mas nada fez", disse Xue Ye, diretor da ONG chinesa Amigos da Natureza.

Ontem, houve nova explosão em outra fábrica de produtos químicos, próxima à cidade de Danjiang, na Província de Sichuan. Uma pessoa morreu, três ficaram feridas e há temores de contaminação por benzeno na região.

Anos e anos de busca incessante de crescimento econômico quase a qualquer preço - tanto para combater a pobreza como para garantir a estabilidade que o Partido Comunista imagina ser necessária para manter-se no poder - resultaram em grave deterioração do meio ambiente.

Uma alta autoridade ambiental chinesa calcula que a poluição custa ao país de 8% a 15% de seu PIB (que neste ano deve ser de US$ 1,9 trilhão, segundo estimativa da revista "The Economist").

Sete das dez cidades mais poluídas do mundo estão na China. De acordo com a Agência Internacional de Energia, o ar sujo é responsável pela morte de 400 mil pessoas por ano no país. Em junho, Qiu Baoxing, vice-ministro para a Construção, disse que o país precisa investir US$ 241 bilhões até 2010 no sistema de fornecimento de água para as cidades.

Além de ser poluída, a água na China está se exaurindo. Segundo a agência oficial de notícias Xinhua, 70% dos rios chineses estão contaminados, mais de um terço do país está exposto a chuva ácida e, nos últimos 50 anos, mais de mil lagos desapareceram. Estimativas diferentes do próprio governo chinês dão conta que de 180 milhões a 360 milhões de habitantes não têm acesso a água potável.

Fábricas e usinas de energia com freqüência ignoram a legislação ambiental, despejando detritos nos rios e no ar. Muitas empresas que têm equipamentos antipoluição não os usam, para cortar gasto.

"Os chineses dizem que seus padrões [ambientais] são comparáveis aos internacionais", diz Victor Shum, analista da consultoria em energia Purvin & Gertz, de Cingapura. "Creio que são, mas a questão é se a lei é respeitada. Quando você está sob pressão pode haver a tentação de buscar atalhos."

25 de Novembro, 2005
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