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Rádios comunitárias, desenvolvimento e gênero


No dia 23 de abril de 2003, foi lançado o Fórum de Liderança ABDL, evento periódico que pretende apresentar – em debates informais que favoreçam o contato entre os presentes – as experiências dos fellows para membros da comunidade ABDL e público em geral. A convidada foi Thais Corral, fellow da 3ª turma do Lead, que falou para a platéia de suas atividades junto ao movimento de gênero.

Em sua fala Thais contou sobre a trajetória de seu trabalho junto ao movimento feminista nacional, que partiu de uma proposta focada no desenvolvimento de um programa de rádio para popularizar as questões relativas ao gênero junto ao público e acabou se desdobrando na ONG Cemina – Comunicação, Educação e Informação em Gênero. Falou também de uma outra organização criada por ela, a REDEH – Rede de Desenvolvimento Humano, que vem trabalhando sobre a questão da mulher e o meio ambiente.

A opção por trabalhar preferencialmente com o rádio – considerado por muitos o primo-pobre da mídia – surgiu por inspiração de um programa que Thais ouvia durante o tempo em que viveu na Itália, trabalhando para a agência de notícias Interpress Service,onde teve seus primeiros contatos com o movimento feminista, e do caráter democrático desse meio de comunicação que casava com a necessidade de penetrar nas comunidades mais carentes. Em 1989 faz sua estréia na Rádio Guanabara, estação AM do Rio de Janeiro, o Fala Mulher, programa semanal de notícias e serviços totalmente devotado ao público feminino. O sucesso do programa, que acabou se tornando diário, motivou a criação do Cemina para buscar apoios que dessem sustentabilidade econômica para sua manutenção.

Logo o Cemina passou também a desenvolver cursos para formar ou capacitar comunicadoras na disseminação de informações com o olha feminino, permitindo que pequenas estações locais ou rádios comunitárias veiculassem informações mais qualificadas. Os grupos reunidos pelos cursos foram o ponto de partida para a criação da Rede de Mulheres no Rádio, que atualmente congrega cerca de 400 comunicadoras espalhadas por todo o território nacional.

Outro ponto importante viria em 1998, ano em que a Internet se popularizou e inclusão digital se tornou um problema digno de nota. A tradicional proximidade nas relações entre as rádios locais e suas comunidades é uma excelente oportunidade para a aumentar a penetração das tecnologias digitais, permitindo que estes grupos dominem mais uma ferramenta de empoderamento e cidadania. A aposta nessa nova frente de batalha levou a uma profunda alteração no modelo de atuação do Cemina, o maior exemplo dessa nova fase foi que o Fala Mulher trocou, depois de 10 anos de muito sucesso, as ondas AM pelos bits da rede mundial (www.radiofalamulher.com). No website da rádio os internautas têm acesso não apenas ao programa diário mas também a um acervo de arquivos anteriores, disponíveis também para download de forma que outras rádios possam disseminar estes conteúdos.

Nesse espírito de uso das tecnologias da informação para multiplicar as fronteiras do trabalho desenvolvido, foi criado no ano passado o Concurso Cyberela cujo objetivo é trazer para o mundo digital cada vez mais comunicadoras comprometidas com as questões de gênero e cidadania. As 13 ganhadoras receberam computadores com programas de edição de áudio e acesso à Internet, ainda que muitas delas vivessem em áreas não atendidas por qualquer infra-estrutura de telecomunicação, tipo de situação que exige criatividade e capacidade de articulação. Foi o caso de uma rádio acreana, para não premia-la pela metade foi preciso chega a um acordo com o Projeto Sivam que garantiu o acesso à Internet à ganhadora. O Concurso também atende a objetivos indiretos, o primeiro é que os premiados tenham condições de utilizar a Internet para trocar livremente conteúdos de áudio, a segunda é permitir que essas rádios funcionem com pequenos telecentros atendendo as comunidades de seu entorno.

Mas a atuação de Thais não se resume ao campo da comunicação, ela também é uma das fundadoras do REDEH – Rede de Desenvolvimento Humano, organização criada em 87 e que foi uma das principais articuladoras do movimento feminista dentro da ECO 92. Os esforços da REDEH foram vitais para a inclusão das questões de gênero nos debates da conferência, inclusive na Agenda 21 onde as mulheres acabaram alçadas ao status de atores estratégicos listados no documento final. A REDEH foi também parceira de uma organização internacional, a WEDO – Women`s Environment and Development Organization, rede internacional da qual Thais é vice-presidente, que foi presença constante em todo o ciclo de mega-conferências dos anos 90 tendo presença destacada na Rio+10.

24 de Abril, 2003
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