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Moldávia: visitando o jardim da ex-União Soviética

A visita à Moldávia fez parte do programa final da 8ª turma do LEAD que se reuniu em setembro em Moscou para o último encontro do grupo e para a cerimônia de formatura.

Partimos para uma viagem de quatro dias à República da Moldávia com a missão: identificar os efeitos da desintegração e integração em uma das ex-repúblicas soviéticas. Um tema complexo, especialmente, para os cerca de 60 bolsistas do Programa LEAD que na partida sabiam muito pouco sobre este país, independente desde 1991 com a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). A viagem, lógico, despertava a curiosidade sobre um lugar que dificilmente alguém do grupo escolheria para visitar num roteiro turístico. Viemos a constatar depois, porque a Moldávia ficou conhecida como o jardim da ex-URSS.

Este texto é resultado das minhas observações e das discussões entre os bolsistas que visitaram a Moldávia e suas ricas terras em contradições e desafios. Vários olhares estrangeiros buscando detectar na situação daquele o simbolismo do ideograma chinês que diz que na crise estão implícitas oportunidades.

Recebemos no Brasil e, acredito em outros países, poucas informações consistentes sobre a real situação dos novos países que se formaram após a queda da URSS. A Rússia e os conflitos étnicos estão geralmente nos noticiários, mas os desafios que esses povos atravessam nos são praticamente desconhecidos. A visita à Moldávia foi uma oportunidade de vivenciarmos um pouco desta realidade.

Para entender a Moldávia hoje é preciso retroceder na História. Com 4,4 milhões de habitantes, a nova república está na Europa Central, faz fronteira com a Ucrânia e a Romênia, esteve sob o controle da Rússia e da Romênia em diferentes períodos. Isto explica a formação étnica e cultural deste povo: 64,5% são moldavos e romenos, 13% russos, 13.5% ucranianos e restantes são gagauzes, búlgaros, entre outras etnias. A língua é o moldavo (que na verdade é o romeno só que com outro nome), mas se fala também o russo e o gagauz (um dialeto turco). O visitante de origem latina sente uma curiosidade familiar ao identificar algumas palavras do idioma materno que sobreviveu mesmo às sucessivas transformações. A religião mais praticada é o cristianismo ortodoxo. A capital do país Chisinau (pronuncia-se quizinau) é hoje tranqüila e acolhedora.

Caminhando pelos campos da Moldávia

A Moldávia é privilegiada por um clima ameno e solo fértil que favorecem a produção de frutas, vegetais e o cultivo de uma grande variedade de uvas de origem francesa como Cabernet Sauvignon, Malbec, e outras regionais como Feteasca e Rkacitely . Durante o domínio soviético, ao país cabia a tarefa de fornecer produtos agrícolas e abastecer o império com a produção de vinho. A Moldávia mantinha algumas indústrias. Em contrapartida, recebia grande parte da energia e outros produtos. Com a queda do império, o país se viu privado do grande fornecedor, sem energia suficiente para tocar a sua indústria e teve que tentar andar com suas próprias pernas, tendo ao mesmo tempo em que aprender como construir um sistema democrático e ir a busca do mercado para colocar os seus produtos.

O país vem enfrentando sérios problemas sociais e econômicos como a dramática queda do PIB em mais de 65% entre 1990 e 1999. A oferta de emprego caiu nas cidades o que provocou dois comportamentos diferentes no país: uma parte da população voltou para a área rural e outra deixou o país em busca de melhores oportunidades. São 600 mil moldavos que vivem no exterior e representam um terço da força de trabalho da Moldávia. Diariamente eles enviam 100 mil dólares para a Moldávia. Como conseqüência, o país perdeu mão-de-obra qualificada; muitas crianças estão sem pais e muitas vilas sem professores. O nível de alfabetização também está decrescendo.

(In)dependência?

Para tornar ainda mais adversa a situação, a Moldávia enfrenta ainda, um movimento de independência da região da Transdniestria onde se concentra mais de um terço do fornecimento de energia do país e, portanto, a maior parte das indústrias. A Transdniestria é dominada por militares aposentados soviéticos, mas não foi reconhecida por nenhum país como um estado independente.

Em uma década de independência, o país teve oito governos diferentes. O número de partidos passou de um para 200, enfraquecendo as coalizões. Nas ultimas eleições, os comunistas voltaram ao poder. O resultado das urnas refletiu a insatisfação da população com as políticas desastrosas que atrelam cada vez mais o país aos recursos do Fundo Monetário Internacional que aplica no país a conhecida receita da privatização.

Inspirando-se no Texas

As antigas fazendas coletivas estão sendo privatizadas e acabam tendo suas terras pulverizadas nas mãos de milhares de agricultores e membros influentes do regime anterior. Este é o caso da Fazenda Evchiuc. O proprietário Leonid Evchiuc nos contou que investiu dois milhões de dólares de suas economias pessoais logo após a queda do regime e hoje tem uma fazenda que lembra mais uma propriedade do Texas onde ele cria cavalos, produz diferentes marcas de cigarros entre tantos produtos agropecuários. Ele emprega 150 trabalhadores fixos e 400 temporários que recebem entre 25 a 80 dólares por mês. Só em 1998 ele arrendou 1850 hectares de agricultores da região.

Ideograma Chinês

Após quatro dias de visitas, o grupo se viu diante de muitas perguntas e identificou no discurso dos moldavos e nas visitas de campo algumas indicações de oportunidades implícitas na crise:

1- A falta de recursos fez com que a Moldávia passasse a usar menos defensivos agrícolas. Hoje a produção de alimentos é praticamente orgânica. O solo rico e o clima favorecem a produção de saborosos legumes e verduras que no mercado internacional estão em alta.

2- Praticamente desconhecida, a Moldávia tem uma das mais tradicionais culturas vinícolas do planeta: uma tradição que remonta 500 anos e começa a conquistar prêmios internacionais com seus vinhos. Hoje 90% da produção continua sendo comprada pela Rússia. Os moldavos estão tentando estabelecer uma estratégia para atingir outros mercados. Como não fazem parte da Comunidade Econômica Européia estão em busca de alternativas. São capazes de produzir vinhos mais baratos e com qualidade.

3- Com belas paisagens, campos floridos pelo cultivo de girassóis, a Moldávia como destino turístico ainda é desconhecida. Pode ser mais um dos caminhos a se buscar.

4- A construção de um processo democrático leva tempo. Como bem lembrou um dos bolsistas do LEAD-Japão, em uma década, no Japão também 10 governos caíram por que na Moldávia isto não aconteceria ? Acostumados a receber ordens do poder central, os moldavos estão experimentando buscar os seus próprios caminhos com erros e acertos.

No final do encontro, o sentimento de todos os bolsistas em relação aos processos de integração e desintegração foi praticamente o mesmo: há aspectos positivos e negativos em qualquer lugar do mundo. Toda integração imposta pela força gera uma desintegração seja ela política, econômica ou social. Só o respeito pela diversidade de opiniões, culturas, etnias entre outros aspectos pode levar a um mundo social e economicamente mais justo.

30 de Outubro, 2001
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